Faz pouco mais de cinco meses desde que o mundo acordou com uma notícia que parecia ter saído de um roteiro de Hollywood: na madrugada de 3 de janeiro de 2026, forças especiais americanas invadiram Caracas e capturaram Nicolás Maduro. Em menos de meia hora de operação, um regime que durava mais de uma década foi decapitado. Trump anunciou a captura nas redes sociais, e a procuradora-geral Pam Bondi confirmou que um tribunal federal em Nova York seria o próximo destino do ditador venezuelano — réu por narcoterrorismo e tráfico de cocaína.
O mundo ficou paralisado. Mas o que veio depois foi ainda mais revelador sobre a verdadeira natureza da operação.
O Ultimato dos 15 Minutos
Horas após a captura de Maduro, um áudio atribuído à então vice-presidente Delcy Rodríguez vazou e escancarou o que estava acontecendo nos bastidores do poder em Caracas. Na gravação — cuja veracidade não foi confirmada por fontes independentes, mas que circulou amplamente — uma voz que se identificaria como a de Rodríguez relatava o momento em que representantes americanos entraram em contato com os altos funcionários do regime:
“Deram-nos 15 minutos para responder, caso contrário nos matariam. E diante da informação que nos tinham dado de que eles [Maduro e a esposa] tinham sido assassinados, e não sequestrados, dissemos que estávamos prontos para correr o mesmo destino.”
O contexto do suposto ultimato remete aos momentos críticos da operação. A mensagem era clara: colaborar ou morrer. Não havia terceira opção.
A resposta de Rodríguez foi pragmática. Em poucas horas, ela migrou do discurso inflamado — “existe apenas um presidente na Venezuela e seu nome é Nicolás Maduro” — para uma postura conciliatória. Convocou uma coletiva, falou em “agenda de cooperação” com Washington e foi empossada presidente interina pela Assembleia Nacional em 5 de janeiro. Trump, de seu lado, chamou-a de “pessoa incrível” e disse que ela era “alguém com quem trabalhamos muito bem”.
A dança dos sete véus havia começado.
A Cenoura e o Chicote
A colaboração de Rodríguez não foi construída apenas por boas intenções. Washington tratou de deixar claro que a ameaça de processamento criminal seria a espada de Dâmocles permanente sobre sua cabeça. Segundo reportagem da Reuters publicada em março de 2026, promotores federais americanos reuniram possíveis acusações de corrupção e lavagem de dinheiro contra a presidente interina e a comunicaram que seria processada caso parasse de cumprir as exigências de Trump.
Além disso, os EUA apresentaram a Rodríguez uma lista de pelo menos sete ex-autoridades do regime que queriam que ela prendesse ou mantivesse sob custódia para possível extradição — informação noticiada primeiramente pelo jornal espanhol ABC.
Trump foi ainda mais direto ao público: “Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”, declarou em entrevista ao The Atlantic, no dia 4 de janeiro. É um modelo clássico de coerção: a ameaça de indiciamento como instrumento de política externa. Rodríguez governa, mas governa sob tutela.
O Que os EUA Realmente Querem
Aqui está o ponto que a maioria da mídia brasileira pouco explora: os Estados Unidos não invadiram a Venezuela para instalar a democracia. Invadiram para controlar o petróleo.
Trump foi explícito. Logo após a captura de Maduro, declarou que o objetivo da operação era “recuperar a infraestrutura petroleira” e que isso demandava “acesso total ao país”. Em janeiro de 2026, sob pressão direta de Washington, o governo Rodríguez apresentou um projeto de lei que revertia décadas de estatização do setor energético, abrindo a PDVSA ao capital privado internacional. O presidente da estatal, Héctor Obregón, anunciou a meta de crescer 18% na produção de petróleo em 2026 — partindo de cerca de um milhão de barris por dia.
A Venezuela possui as maiores reservas provadas de petróleo do mundo. Para Trump, que já havia dobrado a recompensa pela cabeça de Maduro para US$ 50 milhões antes da operação, isso não era retórica: era estratégia econômica.
Analistas do The Conversation apontam que para Washington “tal confusão seria insatisfatória, mas tolerável”: Maduro fora do poder, os investimentos chineses monitorados, os bombardeiros russos e navios iranianos mantidos à distância, e um aviso enviado a outros governos dissidentes hemisféricos — de Havana a Manágua. Não é democratização. É gerenciamento de interesses.
O Fantasma de Cabello
Se há uma figura que resume a impossibilidade de uma transição limpa, é Diosdado Cabello. Considerado o “número 2” do chavismo e atual ministro do Interior sob Rodríguez, Cabello é indiciado nos EUA por narcoterrorismo — e permanece no poder.
Nas horas seguintes ao ataque americano, ele apareceu nas ruas de Caracas usando colete à prova de balas e capacete, condenando a operação como um “ataque covarde” e mobilizando apoiadores armados em frente ao Palácio de Miraflores. A NPR descreveu sem rodeios: “A captura de Maduro gerou esperanças de abertura democrática. Mas até agora não houve nenhuma ‘Primavera Venezuelana’”, em parte porque Cabello permanece central ao poder.
Em fevereiro de 2026, Rodríguez chegou a nomear Daniella Cabello, filha de Diosdado, ministra do Turismo — um aceno explícito de que o núcleo duro do chavismo continua vivo e negociando seu espaço. Os EUA pedem à Rodríguez que entregue ex-aliados para extradição. Mas exigir que ela entregue Cabello seria exigir que ela se suicidasse politicamente — ou fisicamente. Esse é o paradoxo central da tutela americana sobre Caracas.
Os Quatro Futuros Possíveis
Os principais think tanks internacionais convergem em quatro cenários para a Venezuela, nenhum deles simples:
O Que Fica
O ataque à Venezuela enviou um recado a toda a América Latina: governos à esquerda que contrariarem Washington estão sujeitos a ações militares diretas. Cuba, Nicarágua, México e Colômbia ouviram alto e claro.
Para os venezuelanos comuns, a equação é mais brutal. Maduro foi retirado. Mas os homens que construíram o regime, que comandaram a repressão, que lucraram com o petróleo e com o narcotorrerismo, ainda ocupam ministérios, uniformes e posições de poder. A conta de décadas de chavismo não foi apresentada a eles — foi apresentada ao povo.
A Venezuela pós-Maduro não é, por ora, uma história de liberdade. É uma história de troca de donos — com algumas peças do tabuleiro movidas, mas o tabuleiro intacto.

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