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O Brasil é o único dos BRICs originais que falhou em conquistar relevância no cenário mundial

O País que Ficou para Trás: Brasil é o único dos BRICS originais que não virou potência
Arte gráfica simbolizando o contraste do Brasil perante aos demais BRICs (Chatgpt).

Em 2001, um economista do Goldman Sachs chamado Jim O'Neill reuniu quatro países num acrônimo e fez uma das previsões mais influentes da história econômica recente. Brasil, Rússia, Índia e China — os BRICs — seriam, segundo ele, as locomotivas do século XXI. Em 2050, ultrapassariam o G7. Seriam os novos centros de gravidade do poder global. Quase trinta anos depois, três desses países cumpriram a profecia com folga. O quarto ficou de fora.

O homem que inventou o futuro — e o Brasil que o desperdiçou

Jim O'Neill, então chefe de pesquisa global do Goldman Sachs, publicou em outubro de 2001 o paper "Building Better Global Economic BRICs". A tese era objetiva: o peso demográfico, territorial e o crescimento econômico acelerado desses quatro países os colocaria, inevitavelmente, entre as maiores economias do planeta. O Brasil estava ali não por acidente — era a maior economia da América Latina, a oitava do mundo, um gigante com recursos naturais imensuráveis, uma população jovem e uma indústria em expansão.

A previsão era factível. O Brasil dos anos 2000 crescia acima de 4% ao ano, tinha descoberto o pré-sal, surfava no boom das commodities e era saudado por revistas internacionais como "o país que finalmente decolou". A The Economist publicou, em 2009, uma famosa capa com o Cristo Redentor como foguete decolando. Hoje, aquele foguete não saiu do chão. Está enferrujando.

8ª → 9ª
Posição do Brasil no ranking de PIB nominal mundial. Em 2011, estava em 6º. Em 2026, caiu para 9º — e ameaça perder mais posições para países que sequer existiam como economias relevantes quando o termo BRIC foi cunhado.

Os que foram — e os que ficaram

Comparar o Brasil aos demais BRICs originais não é exercício de humilhação gratuita. É um espelho necessário. Um diagnóstico que o país insiste em recusar.

A China tornou-se a segunda maior economia do mundo, lidera a corrida tecnológica global em inteligência artificial, semicondutores e energia limpa, possui o maior exército em efetivo do planeta, opera uma rede diplomática que abrange cada continente e dita regras em organismos internacionais que antes eram exclusividade ocidental. De manufatura barata a potência do século XXI: em vinte anos, a China percorreu um caminho que levou séculos a outros impérios.

A Rússia, independentemente do julgamento moral sobre sua guerra na Ucrânia, consolidou-se como potência militar de primeira linha com arsenal nuclear capaz de destruir a civilização ocidental múltiplas vezes. Impôs sua agenda ao continente europeu por força bruta, sobreviveu ao maior pacote de sanções da história moderna sem colapsar e construiu alianças alternativas que redesenharam o tabuleiro energético global.

A Índia, por sua vez, é hoje a quinta maior economia do mundo e em acelerada trajetória para o terceiro lugar. Lançou missão à Lua. Possui mísseis balísticos intercontinentais. Tem assento permanente em todas as mesas que importam — do G20 ao Quad — e é cortejada simultaneamente por Washington e Moscou como parceira estratégica insubstituível. Modi voa para onde quer que o trato seja de igual para igual.

China
2ª maior economia. Potência militar nuclear. Lidera IA, 5G e infraestrutura global. Veto no Conselho de Segurança. Presença em todos os continentes.
Rússia
Potência nuclear. Exportadora de energia e armamentos. Impôs agenda à Europa. Construiu bloco de resistência ao Ocidente. Assento permanente no CSONU.
Índia
5ª economia mundial. Programa espacial ativo. Arsenal nuclear. Parceira estratégica de EUA, Rússia e China simultaneamente. Polo tecnológico global.
Brasil
9ª economia e caindo. Sem programa nuclear militar. Sem presença diplomática relevante. Sem indústria de defesa. Principal produto de exportação: grão de soja.

O agroexportador que confundiu commodities com desenvolvimento

O Brasil de 2026 exporta, basicamente, o que a natureza já colocou aqui: soja, minério de ferro, petróleo bruto, carne, celulose. Produtos primários. Bens que existem independentemente de engenharia, inovação ou capacidade estatal. O país é um supermercado de recursos naturais atendendo a uma clientela que, essa sim, agrega valor ao que compra. A China compra a soja brasileira e vende de volta ao mundo em forma de produto industrial. O Brasil planta. O mundo fabrica. Essa divisão internacional do trabalho tem um nome histórico, e não é lisonjeiro.

Enquanto a Índia lança satélites e a China instala fábricas de semicondutores, o Brasil debate reforma tributária há trinta anos, não tem uma universidade entre as cem melhores do mundo, investe em pesquisa e desenvolvimento menos de 1,2% do PIB e viu sua indústria de transformação encolher de 35% do PIB nos anos 1980 para menos de 11% hoje. Desindustrialização precoce, sem ter industrializado completamente. Uma armadilha que o próprio país construiu tijolo por tijolo, governo por governo.

"O Brasil não é um país subdesenvolvido. É um país injusto. A diferença é que o subdesenvolvimento pode ser superado com política pública. A injustiça, quando se torna cultura, é permanente." — paráfrase recorrente entre economistas críticos da estrutura brasileira

Irrelevância diplomática, militar e científica

No plano internacional, o Brasil existe como fornecedor — nunca como protagonista. Não tem assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (e as tentativas de obtê-lo foram tratadas com condescendência por potências que sequer consideraram a candidatura seriamente). Não tem projeção militar além de suas próprias fronteiras. Não possui arsenal nuclear. Não possui míssil balístico. Não possui capacidade de dissuasão crível contra nenhum adversário que decidisse, hipoteticamente, confrontá-lo.

O orçamento de defesa brasileiro equivale a menos de um quinto do indiano e a uma fração minúscula do chinês. As Forças Armadas brasileiras, respeitáveis dentro de suas limitações, não foram desenhadas para projeção de poder — foram desenhadas, na prática, para operações internas. O país que tem a maior floresta tropical do mundo, a maior reserva de água doce do planeta e uma das maiores reservas de petróleo do hemisfério sul não tem capacidade de defender nenhum desses ativos contra uma potência que realmente os desejasse.

Síndrome da Republiqueta Quando líderes brasileiros aparecem em cúpulas internacionais — G20, COP, fóruns do BRICS — são recebidos com a cordialidade reservada a anfitriões de eventos e fornecedores de recursos naturais. Não são consultados sobre arquitetura de segurança global. Não definem agendas. Não têm poder de veto sobre nada que importe. São tratados, com toda a diplomacia necessária para disfarçar o fato, como parceiros menores. Como fornecedores. O Brasil tem o tamanho de um continente e o peso político de um país médio sem história de potência.

A mediocridade como projeto nacional

O mais perturbador não é o fracasso em si — países falham, trajetórias mudam, janelas de oportunidade se fecham. O mais perturbador é a ausência de urgência. O Brasil não tem um projeto nacional de potência porque nunca quis ter um. Suas elites enriqueceram exatamente na configuração atual: vender commodities, importar manufaturados, capturar o Estado para proteção de privilégios e transferir capital para o exterior. O subdesenvolvimento nacional é, para uma classe dirigente específica, um modelo de negócios.

A população, submetida a décadas de má educação pública e distração sistêmica — carnaval, futebol e reality shows — raramente formulou exigências de grandeza. Contentou-se em celebrar líderes que prometiam "distribuir" o que nunca foi criado. O resultado é um país que chega ao quarto de século do século XXI sem industria de defesa, sem missão espacial tripulada, sem programa nuclear civil robusto, sem universidade de classe mundial e sem a menor perspectiva de ocupar o lugar que Jim O'Neill reservou para ele em 2001.

A previsão era generosa. O Brasil não estava à altura dela. E o que é mais grave: ainda não percebeu.

Fontes

  1. O'Neill, Jim — "Building Better Global Economic BRICs", Goldman Sachs Global Economics Paper nº 66, outubro de 2001
  2. The Economist — "Brazil takes off" (capa, novembro de 2009)
  3. Banco Mundial — Ranking de PIB nominal por país, série histórica 2001–2026
  4. ISRO / Agência Espacial Indiana — Missão Chandrayaan-3, relatório de missão, 2023
  5. SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) — Military Expenditure Database, 2025
  6. OCDE / MCTIC — Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação no Brasil, 2024
  7. CNI (Confederação Nacional da Indústria) — Desindustrialização no Brasil: diagnóstico e perspectivas, 2023
  8. FGV / IBRE — Boletim Macro, participação da indústria no PIB brasileiro, março de 2026
  9. Foreign Affairs — "India's Moment: Why the World's Largest Democracy Is Finally Ready to Lead", 2024
  10. Valor Econômico — "Brasil perde posições no ranking mundial de PIB pelo terceiro ano consecutivo", fevereiro de 2026

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