Existe uma máxima, raramente pronunciada em voz alta, que parece orientar a política externa brasileira desde os tempos do Império: crescer é permitido, desde que ninguém cresça mais do que o Brasil. O economista marxista Ruy Mauro Marini cunhou, em 1969, o conceito preciso para nomear esse padrão: subimperialismo. Ocorre quando uma potência intermediária — nem centro nem periferia plena do sistema capitalista global — exerce dominação sobre países ainda mais fracos de sua região, ao mesmo tempo em que permanece subordinada às potências centrais. O Brasil se encaixa nessa definição com uma precisão quase desconcertante.
Marini identificava três características essenciais do subimperialismo, e o Brasil as reúne todas: uma base industrial e militar relativamente desenvolvida, que permite projetar poder regional; uma política exterior expansionista, disfarçada de cooperação ou integração; e cumplicidade com o imperialismo central, atuando como gendarme regional em nome dos interesses do Norte. O que se segue não é uma série de episódios isolados de má vizinhança. É um padrão estrutural, historicamente consistente, que atravessa dois séculos — e que o Brasil jamais teve coragem de debater abertamente sobre si mesmo.
Século XIX — A Força das Armas e dos Tratados
O palco inaugural dessa política foi a Bacia do Prata, região de imenso valor estratégico e econômico. O Império brasileiro interviu militarmente no Uruguai em 1851 e novamente em 1864, não por razões humanitárias, mas para manter o país vizinho dentro de sua esfera de influência, afastado da Argentina e, sobretudo, incapaz de construir autonomia própria.
Essas intervenções prepararam o terreno para o maior crime geopolítico da história sul-americana: a Guerra da Tríplice Aliança, que durou de 1864 a 1870. O Paraguai daquela época era uma anomalia incômoda para as potências centrais — um país sem dívida externa, com alfabetização avançada para a época, indústria nascente e soberania econômica real. Ousava existir fora das regras impostas pelos credores europeus e pelas potências regionais. A resposta foi o extermínio. Financiada por banqueiros ingleses e executada sobretudo pelo Brasil, a guerra foi apocalíptica: o Paraguai perdeu entre 60% e 90% de sua população masculina, teve seu território devastado, sua indústria destruído e sua dívida externa inaugurada à força. O país que poderia ter sido um modelo alternativo de desenvolvimento foi literalmente varrido do mapa da prosperidade.
1903 — A questão do Acre e a ferrovia envenenada
No final do século XIX, a Bolívia — que já havia perdido seu litoral para o Chile na Guerra do Pacífico — tentou se modernizar por meio das riquíssimas florestas de borracha da região do Acre. Para desenvolver a área, o governo boliviano assinou contrato com um consórcio empresarial norte-americano e britânico, o chamado Bolivian Syndicate.
O Brasil, fiel à lógica subimperialista de barrar qualquer influência externa que pudesse fortalecer um vizinho, viu a presença anglo-americana em suas fronteiras como uma ameaça inaceitável. A resposta foi brutal na sua elegância diplomática: fechou o Rio Amazonas à navegação boliviana, cortando a única rota viável de exportação da borracha para a Europa. Sufocada militarmente e isolada economicamente, a Bolívia foi forçada a assinar o Tratado de Petrópolis (1903), cedendo o Acre ao Brasil em troca de uma compensação financeira e da promessa de construção da Ferrovia Madeira-Mamoré.
A ferrovia demorou anos para sair do papel, custou milhares de vidas em meio à selva e ficou obsoleta quase imediatamente com o colapso do ciclo da borracha. A Bolívia ficou sem o território, sem o controle das riquezas e ainda mais isolada geograficamente — presenteada com uma ferrovia inútil no lugar de um futuro que lhe havia sido roubado.
Anos 1940–1950 — O Isolamento da Argentina
Na primeira metade do século XX, a Argentina era a maior potência econômica da América do Sul e a principal rival do Brasil. Nos anos 1940 e 1950, Buenos Aires tentou construir uma rede de integração energética e de transportes que conectaria o Cone Sul, incluindo o fornecimento de gás e ferrovias ligando a Argentina ao Chile, à Bolívia e ao Paraguai.
O Brasil reagiu com instrumentos mais sutis do que as guerras do século anterior: usou sua influência diplomática e financeira para oferecer contrapropostas mais atraentes ao Paraguai e à Bolívia, como ferrovias integradas ao porto de Santos. O resultado foi o esvaziamento sistemático dos projetos de integração liderados por Buenos Aires. Ao atrair Paraguai e Bolívia para a órbita econômica de São Paulo, o Brasil isolou a Argentina e atrasou em décadas a criação de uma rede energética integrada no Cone Sul — consolidando-se como o único polo industrial dominante da região.
Anos 1960–1970 — Golpes, Ditaduras e a Operação Condor
Com a chegada da ditadura militar brasileira em 1964, o subimperialismo ganhou novos instrumentos: dólares, armas, aviões e ideologia anticomunista importada de Washington — expressão direta da terceira característica descrita por Marini, a cumplicidade com o imperialismo central.
A Linha de Intervenção da Ditadura Brasileira na Região (Anos 1970)
Em 1971, o governo de Emílio Garrastazu Médici apoiou o golpe que levou o general Hugo Banzer ao poder na Bolívia, derrubando o presidente de esquerda Juan José Torres. O Brasil forneceu armas, aeronaves e financiamento aos golpistas. No Uruguai, elaborou a Operação Trinta Horas — um plano concreto de invasão militar caso o candidato Liber Seregni vencesse as eleições de 1971 — e continuou enviando apoio logístico para sustentar o golpe de Estado uruguaio de 1973. No Chile, conspirou ativamente contra o governo eleito de Salvador Allende e, após o golpe de Pinochet em setembro de 1973, foi o primeiro país do mundo a reconhecer a ditadura, enviando ajuda médica, alimentos e oficiais militares para treinar as forças repressoras chilenas.
Tudo isso culminou na Operação Condor — a aliança clandestina entre as ditaduras do Cone Sul para sequestrar, torturar e assassinar opositores além de suas próprias fronteiras. O Brasil foi peça central nesse mecanismo. O efeito foi o congelamento do progresso democrático e social da região por pelo menos duas décadas — décadas que poderiam ter sido de crescimento, distribuição de renda e afirmação soberana dos povos sul-americanos.
1973 — Itaipu e a energia barata
A relação do Brasil com o Paraguai ganhou um novo capítulo com a construção da Usina de Itaipu. O Tratado de Itaipu, assinado em 1973, foi profundamente assimétrico: o Paraguai, dono de metade da geração, era obrigado a vender ao Brasil o excedente que não consumisse a um preço irrisório, fixado unilateralmente e corrigido muito abaixo da inflação. Por décadas, o Paraguai foi o maior exportador de energia limpa do planeta e um dos países mais pobres da América do Sul. A riqueza gerada pelas suas próprias águas atravessava a fronteira e enriquecia o gigante.
Só em 2009, após longa pressão do presidente Fernando Lugo, o Brasil aceitou uma revisão parcial dos termos — mantendo, ainda assim, a estrutura de dependência em grande medida intacta.
Anos 1990 — O Mercosul como Mercado Cativo
Quando o Mercosul foi criado em 1991, a promessa era de livre circulação de bens e de que as economias menores teriam acesso ao gigantesco mercado consumidor brasileiro para desenvolverem suas indústrias. Aqui se revelava com nitidez a segunda característica do subimperialismo descrita por Marini: a política expansionista disfarçada de integração.
O que se viu, na prática, foi diferente. Sempre que um setor industrial uruguaio ou paraguaio — laticínios, têxteis, autopeças — começa a crescer e incomodar produtores brasileiros, o Brasil aplica barreiras não tarifárias, burocracias alfandegárias ou licenças de importação não automáticas. O resultado é que Uruguai e Paraguai nunca conseguiram planejar um crescimento industrial de longo prazo baseado na exportação regional. O Uruguai, hoje, tenta ativamente assinar acordos bilaterais com a China e os Estados Unidos por fora do Mercosul — queixando-se, abertamente, de que as regras do bloco servem apenas para manter os vizinhos menores como mercados cativos de produtos brasileiros.
Anos 2000–2010 — O BNDES e a dívida disfarçada de ajuda
Durante o boom das commodities, o Brasil modernizou o subimperialismo: trocou ações paramilitares pelo BNDES, mas manteve a mesma lógica de extração e dependência. O banco financiou grandes obras de infraestrutura nos países vizinhos — linhas de metrô na Venezuela, rodovias na Bolívia, portos em Cuba — num modelo desenhado para beneficiar amplamente as empreiteiras brasileiras e gerar armadilhas de endividamento para os vizinhos.Essa mesma lógica é usada pelas Potências Centrais - FMI, Banco Mundial etc. - e agora, também pela China com países africanos.
Mecanismos de Dominação Subimperialista por Época
| Período | Vetor de Projeção | Objetivo Estratégico | Impacto nos Vizinhos |
|---|---|---|---|
| Século XIX | Intervenção Militar Direta | Garantir hegemonia territorial na Bacia do Prata | Destruição do Paraguai e anexação de áreas satélites. |
| Anos 1970 | Aliança Ideológica/Diplomacia Operacional | Contenção de regimes de esquerda (Doutrina de Segurança) | Financiamento de golpes de Estado (Bolívia/Uruguai/Chile). |
| Anos 2000 | Crédito de Exportação (BNDES) | Expansão e mercado cativo para grandes empreiteiras | Endividamento estrutural e paralisação de logísticas locais. |
O caso mais emblemático foi o da rodovia que cortaria o TIPNIS, reserva indígena e parque nacional boliviano de enorme importância ambiental. A obra causou uma crise política devastadora para o governo de Evo Morales, com protestos violentos e repression policial — paralisando investimentos logísticos que a Bolívia de fato necessitava em outras regiões. Venezuela e outros países viram suas economias sofrerem com empréstimos atrelados a empreiteiras que, mais tarde, seriam identificadas como protagonistas do maior esquema de corrupção da história do continente. O progresso parou pela metade, deixando os vizinhos com esqueletos de concreto e dívidas impagáveis.
2006–2008 — Espionagem, gás e escutas
Quando Evo Morales decretou a nacionalização dos hidrocarbonetos bolivianos em maio de 2006, conversas telefônicas entre Lula e Evo Morales foram interceptadas e vazadas durante as tensas negociações sobre os contratos de gás. As escutas revelaram que o Brasil monitorava de perto as movimentações políticas internas da Bolívia — tratando sua instabilidade não como uma tragédia a ser solidariamente enfrentada, mas como uma variável a ser gerenciada em benefício próprio.
O Presente — A Inveja disfarçada de doutrina
E chegamos ao tempo de hoje. O Brasil observa com desconforto mal disfarçado o petróleo venezuelano — uma das maiores reservas provadas do planeta — e o gás boliviano, que poderia transformar a Bolívia em uma potência energética regional. Em vezes de celebrar a riqueza dos vizinhos e construir projetos de integração que beneficiassem a todos, o país oscila entre a cobiça e a sabotagem diplomática.
É plausível - opnião desse editor - que o Brasil aprecie o bolivarianismo na Venezuela por este limitar o crescimento vizinho e garantir a hegemonia brasileira. Assim, a capitura de Maduro foi lamentada unicamente por aproximar o país da esfera americana e do progresso que dela advém, criando um forte concorrente regional. Ao que tudo indica, manter esse status quo é uma política do Estado Brasileiro e independe de sua liderança habitual.
O mais irônico é que o Brasil tampouco se desenvolve plenamente. Com toda a sua riqueza natural, seu território imenso e sua população trabalhadora e criativa, o país acumula décadas de desigualdade crônica, infraestrutura precária e instabilidade política. Subordinado para cima — às regras do FMI, das multinacionais e da geopolítica do Norte — e dominante para baixo, sobre vizinhos a quem jamais permitiu prosperar em paz, o Brasil encarna com perfeição sombria o conceito que Marini descreveu há mais de meio século.
Fontes e Leituras Recomendadas
- DORATIOTO, Francisco. — Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. — Brasil, Argentina e Estados Unidos: Conflito e Integração na América do Sul. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
- MARINI, Ruy Mauro. — Subdesarrollo y Revolución. México: Siglo XXI, 1969.
- TOCANTINS, Leandro. — Amazônia: Natureza, Homem e Tempo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
- DINGES, John. — The Condor Years: How Pinochet and His Allies Brought Terrorism to Three Continents. New York: The New Press, 2004.
- ZIBECHI, Raúl. — Brasil Potencia: Entre la Integración Regional y un Nuevo Imperialismo. Bogotá: Ediciones desde Abajo, 2012.
- BRANDS, Hal. — Latin America's Cold War. Cambridge: Harvard University Press, 2010.
- MOLINA, Fernando. — La nacionalización del gas en Bolivia: contexto, causas e consequências. La Paz: Friedrich Ebert Stiftung, 2007.
- CEPAL. — Assimetrias e desafios do Mercosul para as economias menores. Santiago: Nações Unidas, 2012.

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