Existe uma máxima conhecida entre economistas: a força de uma nação se mede pela força de sua classe média. É esse grupo que consome, produz, paga a maior parte dos impostos, investe em educação e empreende. Quando ele prospera, o país cresce; quando ele se enfraquece, a sociedade inteira perde fôlego. No Brasil, uma combinação de fatores econômicos tem corroído esse segmento ano após ano — e cresce a suspeita de que não se trata apenas de uma sequência de acidentes de percurso, mas de um processo que, em alguma medida, interessa a determinados projetos políticos.
Os mecanismos do desgaste
O primeiro mecanismo é a carga tributária. O trabalhador de classe média paga imposto sobre a renda, sobre o consumo, sobre combustível, energia, telecomunicações e praticamente todo produto ou serviço que adquire. O volume arrecadado é altíssimo, mas a percepção de retorno em serviços públicos é baixa — e, a cada novo ciclo eleitoral, surgem novas propostas de tributação que recaem justamente sobre quem já está no limite da capacidade de pagar.
Esse descompasso gera o segundo problema: o pagamento duplo pelos mesmos serviços. A classe média financia a educação pública via impostos, mas recorre a escolas particulares; financia o SUS, mas paga plano de saúde; financia a segurança pública, mas arca com condomínios fechados e sistemas privados de vigilância. Paga-se como em um país desenvolvido, mas recebe-se, em muitos casos, serviço de padrão precário — um arranjo que, na prática, funciona como uma transferência contínua de renda do bolso de quem trabalha para a manutenção de uma máquina pública ineficiente que não presta contas.
A inflação atua como um terceiro fator, um imposto invisível que corrói o poder de compra silenciosamente. Mesmo quando os índices oficiais parecem controlados, o custo de alimentação, moradia, planos de saúde e educação cresce de forma persistente, reduzindo a capacidade de poupança de cada geração em relação à anterior — e, por não ter autoria visível, é o instrumento mais conveniente para empobrecer sem que ninguém precise assumir a responsabilidade política por isso. Esse “controlados” é um eufemismo, pois o sentimento é de que a inflação nunca esteve dentro das metas do Banco Central na prática.
A crise habitacional é o quarto elemento. O preço dos imóveis sobe mais rápido que os salários, e o financiamento permanece caro, pois temos a taxa de juros entre as maiores do mundo. A casa própria, antes uma meta alcançável em uma geração, tornou-se um objetivo que pode levar décadas de endividamento — e patrimônio é, justamente, o que dá independência a uma família em relação ao Estado e ao mercado.
O quinto fator é a precarização do mercado de trabalho. Empregos formais e estáveis vêm sendo substituídos por vínculos temporários, informais ou ligados à economia de aplicativos. Isso ampliou opções de renda, mas reduziu a previsibilidade financeira e eliminou benefícios que antes eram padrão para quem ocupava posições de classe média, tornando esse contingente mais instável e mais dependente de políticas assistenciais a cada novo ciclo de crise.
Por fim, a desindustrialização retirou do país boa parte dos empregos qualificados que historicamente sustentaram a ascensão de trabalhadores para a classe média urbana. Com a economia mais dependente de commodities e menos de manufatura de alto valor agregado, as oportunidades de mobilidade social diminuíram, enquanto a burocracia e a multiplicação de taxas e obrigações acessórias sufocam pequenos empresários e profissionais liberais — justamente o grupo que, por ter negócio próprio, patrimônio e independência financeira, tende a ser mais resistente a discursos de dependência estatal.
A classe média como alvo declarado
Esse desgaste material caminha lado a lado com um discurso explícito de hostilidade. Em maio de 2013, durante o lançamento de um livro sobre os governos do PT, ao lado do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a filósofa Marilena Chaui afirmou: “Eu odeio a classe média”. Na mesma fala, ela descreveu a classe média como o “atraso de vida”, como “estupidez”, e completou dizendo que ela reúne “o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista”, classificando-a ainda como uma “abominação política” por ser, em suas palavras, “fascista”, uma “abominação ética” por ser “violenta”, e uma “abominação cognitiva” por ser “ignorante”.
Mais de uma década depois, em setembro de 2025, Chaui repetiu a declaração em entrevista à Folha de S.Paulo, afirmando que odeia a classe média “até o fim dos meus dias” e justificando a frase acima. Na mesma entrevista, ela explicou que, em sua visão marxista, a sociedade capitalista tem duas classes fundamentais — a trabalhadora e a burguesia — e que a classe média sonharia em ascender à burguesia, tendo como pesadelo cair na classe trabalhadora.
É exatamente essa posição intermediária que explica, para parte da esquerda, por que a classe média seria um obstáculo ao projeto revolucionário. Diferente do operariado, que supostamente não teria nada a perder além de seus grilhões, a classe média tem casa, carro, negócio próprio, reserva financeira, plano de saúde particular — patrimônio que ela quer proteger. Por isso, tende a resistir a discursos de ruptura, de expropriação, de confronto direto entre “ricos” e “pobres”. Ela é vista como uma camada que “amortece” a luta de classes, dificultando a polarização binária entre exploradores e explorados que esse tipo de pensamento considera necessária para qualquer transformação revolucionária.
Conclusão: o amortecedor que precisa ser removido
Quando se observa em conjunto a tributação excessiva, a inflação persistente, o colapso dos serviços públicos, a crise habitacional, a precarização do trabalho e a desindustrialização, é difícil não notar que todos esses fatores produzem o mesmo resultado final: uma classe média cada vez menor, mais endividada, mais dependente de programas estatais e com cada vez menos patrimônio para defender. E é justamente esse patrimônio — a casa própria, o pequeno negócio, a reserva financeira — que torna alguém resistente a discursos de ruptura.
A experiência histórica das nações mais prósperas, porém, mostra o contrário: nenhuma delas alcançou estabilidade duradoura destruindo sua classe média. O que se produz, ao final, não é maior igualdade, mas uma população mais pobre, mais endividada e mais dependente — e, para quem vê na classe média um obstáculo político a ser removido, talvez seja exatamente esse o objetivo.
Fontes Consultadas
- Wikiquote (PT) — Marilena Chaui: registro da frase “Eu odeio a classe média. A classe média é o atraso de vida...” e da sequência sobre “abominação política/ética/cognitiva”
- Citações e frases famosas — contexto do discurso na Fundação Maurício Grabois, 13 de maio de 2013, no lançamento do livro sobre os governos Lula/Dilma
- Revista Oeste — reafirmação da frase em entrevista à Folha de S.Paulo, setembro de 2025
- Pensador.com — citação de 2025 com referência à Folha de S.Paulo (27 set. 2025)
- Gazeta do Povo — explicação de Chaui sobre as “duas classes fundamentais” (trabalhadora e burguesia) e a ideia da classe média que “sonha em se tornar burguesa”
- A Fonte PB — cobertura da entrevista à Folha, com detalhes sobre a visão de Chaui sobre neoliberalismo e identitarismo
- Géledes — cobertura de 2016 sobre o discurso original de 2013, no lançamento de “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma”
- Wikipedia (EN) — dados biográficos de Marilena de Souza Chaui

Nenhum comentário:
Postar um comentário