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Derrota Estratégica? Como as guerras em Gaza, Irã e Líbano demoliram a imagem de Israel no mundo

Arte gráfica representando a derrota midiática israelense (ChatGPT).

Israel impôs sérios danos militares a Gaza, ao Irã e ao Líbano. Destruiu infraestruturas, neutralizou lideranças do Hamas e do Hezbollah e demonstrou capacidade operacional em múltiplas frentes simultâneas. No campo estritamente tático, foi uma vitória inegável. Mas no campo que realmente define o século XXI — a guerra pela narrativa, pela opinião pública e pela legitimidade internacional — Israel e seus aliados americanos sofreram uma derrota histórica, cujas consequências ainda estão em pleno desdobramento.

Os Números que Não Mentem

Uma pesquisa do Pew Research Center, divulgada em junho de 2025, apontou que a maioria da população em 21 dos 24 países analisados tem visão negativa sobre Israel. A imagem do país é particularmente desfavorável em oito nações, onde pelo menos 75% dos entrevistados expressaram opiniões negativas — entre elas Austrália, Grécia, Indonésia, Japão, Holanda, Espanha e Suécia. Nos Estados Unidos, a rejeição a Israel chegou a 60% — quase 20 pontos percentuais acima do índice de 2022.

A consultoria americana Morning Consult, ouvindo mais de 40 mil pessoas em 53 países, foi ainda mais contundente: Israel é o país mais impopular do mundo, com saldo de aprovação líquida de -52 pontos percentuais. A Rússia aparece em segundo lugar (-46) e os próprios Estados Unidos em terceiro (-26).

O Colapso do Soft Power

No Índice Global de Soft Power de 2025, Israel registrou a maior queda de sua história, despencando para a 33ª posição. O Nobel da Paz Mohamed ElBaradei resumiu o que bilhões de pessoas ao redor do globo passaram a sentir: "Israel venceu muitas batalhas com poder letal, mas perdeu a coisa mais valiosa que um país pode ter — os corações e as mentes de bilhões de pessoas."

Gaza: O Genocídio que o Mundo Assiste em Tempo Real

Oficialmente, mais de 44 mil palestinos mortos — provavelmente esse número é muito mais elevado, pois a população de Gaza antes da guerra girava em torno de 2,4 milhões, enquanto hoje está próximo de 2,1 milhões — hospitais destruídos, campos de refugiados bombardeados e uma população inteira submetida ao que a ONU descreveu como insegurança alimentar severa ou fome deliberada. As imagens viralizaram em cada canto do planeta — sem filtro, sem edição, transmitidas diretamente pelos próprios sobreviventes.

Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant, acusados de crimes de guerra e crimes contra a humanidade — incluindo o uso da fome como método de guerra e ataques desproporcionais contra civis. Paralelamente, a África do Sul levou Israel ao Tribunal Internacional de Justiça sob acusação formal de genocídio — a primeira vez na história que o Estado judeu enfrentou tal acusação em uma corte internacional.

Essas cenas, amplificadas pelas redes sociais, produziram um efeito devastador que nenhuma campanha de relações públicas foi capaz de conter.

O paradoxo mais sombrio desse processo é que as imagens de Gaza, ao circularem globalmente sem controle, produziram um efeito colateral que inverte décadas de construção de memória histórica do Holocausto: o aumento massivo de conteúdo de ódio nas redes sociais, incluindo publicações em plataformas como Instagram e TikTok — fenômeno documentado pela própria ADL, que soa como uma reabilitação política de Adolf Hitler, pois grande parte do conteúdo publicado nessas redes o apresenta de forma favorável.

O Hezbollah e a Guerra de Marketing que Expôs Israel

No Líbano, o Hezbollah não travou apenas uma batalha de foguetes — travou uma campanha de imagem cirúrgica. O grupo publicou um vídeo de mais de nove minutos com imagens capturadas por drone sobrevoando Haifa, registrando posições militares sensíveis, complexos de inteligência e baterias do próprio Iron Dome — em um episódio classificado por analistas como uma das maiores falhas de segurança da história recente de Israel.

Drones de fibra ótica de baixo custo revelaram ao mundo a vulnerabilidade de um dos exércitos mais bem financiados do planeta. Tanques destruídos, bases atingidas, alvos de inteligência expostos — tudo filmado, editado e distribuído com eficiência de produtora profissional. A reputação de invencibilidade das Forças de Defesa de Israel, construída ao longo de décadas, foi erodida quadro a quadro.

O Irã e a Humilhação que um Aliado Ocidental Nomeou

O Irã foi além. Com mísseis hipersônicos e uma sofisticada campanha de guerra híbrida com uso de inteligência artificial, Teerã demoliu a reputação do Iron Dome e expôs a fragilidade estratégica do eixo Israel-EUA perante a opinião global.

Quem nomeou essa humilhação não foi um porta-voz iraniano, mas o chanceler da Alemanha. Friedrich Merz declarou publicamente que o Irã está "humilhando" os Estados Unidos no Oriente Médio. "É evidente que os iranianos são mais fortes do que se pensava", afirmou Merz. "A chamada Guarda Revolucionária Islâmica humilhou uma nação inteira." O chanceler comparou o desgaste americano aos fracassos no Afeganistão e no Iraque, afirmando que os EUA "entraram obviamente nesta guerra sem qualquer estratégia".

A guerra híbrida iraniana conquistou o campo de batalha mais decisivo do século: a mente humana. E nesse campo, Israel e os EUA perderam.

O Efeito Colateral: O Antissemitismo Explode no Mundo

O Antisemitism Research Center registrou aumento de 21,2% nos incidentes antissemitas em julho de 2025 em relação ao mesmo mês de 2024. Na Alemanha, os casos cresceram 75% entre 2021 e 2023. Na França, 185%. No Reino Unido, 82%.

O Caso do Brasil

A Confederação Israelita registrou 1.788 incidentes em 2024, contra 432 em 2022 — um salto de mais de 300% em apenas dois anos. Para o professor Uriya Shavit, da Universidade de Tel Aviv, os dados apontam para a normalização de um ódio que parecia enterrado na história.

Uma Derrota que Nenhum Tanque Pode Reverter

A derrota na guerra de narrativas produziu uma consequência que pode afetar a segurança interna de Israel. Até então o ódio ao Estado Judaico era circunscrito aos seus vizinhos territoriais; hoje, estende-se a vários países, fato que pode afetar as relações diplomáticas que sustentam a segurança do país.

Israel ganhou batalhas. Destruiu infraestruturas. Eliminou lideranças inimigas. Mas perdeu algo que não se reconquista com operações militares: a legitimidade moral perante o mundo. A Alemanha perdeu recentemente sua vaga no Conselho de Segurança da ONU — e a imprensa europeia apontou diretamente o apoio alemão a Israel como causa da derrota diplomática.

No século XXI, a guerra que define o destino das nações não se decide nos campos de batalha. Decide-se nos feeds, nas assembleias internacionais e na memória coletiva da humanidade. E nessa guerra, o veredicto já está sendo escrito.

Fontes e Referências

  • Pew Research Center — Global Views on Israel and Netanyahu, junho de 2025
  • Morning Consult — Country Favorability Rankings, março de 2026
  • Brand Finance — Índice Global de Soft Power 2025
  • Human Rights Watch — Relatório Mundial 2025: Israel e Palestina
  • Tribunal Penal Internacional (TPI) — mandados de prisão contra Netanyahu e Gallant, novembro de 2024
  • Tribunal Internacional de Justiça — caso África do Sul vs. Israel (genocídio), 2024
  • Antisemitism Research Center (ARC) — dados julho 2025
  • Universidade de Tel Aviv — Relatório Anual sobre Antissemitismo, 2025
  • Anti-Defamation League (ADL) — Relatório de Incidentes 2024/2025
  • Confederação Israelita do Brasil (CONIB) — Relatório 2024
  • Centro de Combate ao Ódio Digital (CCDH) — relatórios sobre conteúdo antissemita e nazista nas redes sociais, 2023/2024
  • Gazeta do Povo — Chanceler da Alemanha diz que o Irã está "humilhando" os EUA, abril de 2026
  • Euronews — Trump diz que Merz "não sabe do que fala", abril de 2026
  • IHU Unisinos / El Salto — A imagem de Israel atinge o ponto mais baixo de sua história, abril de 2026
  • Morashá — Antissemitismo nas mídias sociais, 2024
  • Global Security / IRNA — Hezbollah releases drone footage of sensitive Israeli targets, junho de 2024
  • Blinken / Instituto McCain / Sedona Forum — declarações sobre redes sociais e narrativa de guerra, 2024
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