Arte gráfica retratando essa nova aliança (Chatgpt).
Quatro potências insatisfeitas com o mundo construído em 1945 formam uma coalizão de fato — e estão dispostas a reescrevê-lo pela força, pelo comércio ou pela ameaça nuclear.
Há uma fissura profunda na arquitetura do mundo contemporâneo. Ela não começou em fevereiro de 2022, quando os tanques russos cruzaram a fronteira ucraniana, nem em 2013, quando Xi Jinping anunciou a Nova Rota da Seda. Começou muito antes, na insatisfação crescente de quatro regimes que enxergam a ordem liberal internacional — construída sobre os escombros da Segunda Guerra Mundial — como um sistema de dominação ocidental disfarçado de universalismo. Rússia, China, Irã e Coreia do Norte não são apenas autocracias que desafiam democracias. São potências revisionistas: querem mudar as regras do jogo, e estão dispostas a pagar o preço disso.
A insatisfação com a ordem pós-1945
O mundo saído de Bretton Woods, da Carta da ONU e do Consenso de Washington foi arquitetado pelos vencedores da guerra — sobretudo pelos Estados Unidos. Instituições como o FMI, o Banco Mundial e a OMC foram desenhadas para refletir os interesses e os valores do Ocidente: livre mercado, proteção de patentes, mobilidade de capital, condicionalidades políticas. Para Moscou, Pequim, Teerã e Pyongyang, essas instituições não são árbitros neutros. São instrumentos de hegemonia.
Quando o Ocidente impõe sanções via SWIFT, bloqueia reservas cambiais soberanas ou usa o dólar como arma geopolítica, confirma o diagnóstico do eixo: a ordem liberal é, acima de tudo, uma ordem de poder. Por isso, esses quatro países não querem reformar o sistema — querem substituí-lo. Querem um mundo multipolar onde nenhuma potência dite regras sozinha, onde soberania signifique imunidade a pressões externas e onde modelos autoritários de governança sejam tão legítimos quanto democracias liberais.
"Não se trata de reformar a ordem. Trata-se de enterrá-la e construir outra."
Quatro potências, quatro agendas revisionistas
Putin nunca aceitou a dissolução da URSS como fato consumado. Para Moscou, o "estrangeiro próximo" — os países do antigo espaço soviético — é zona de influência legítima, não soberania plena. A expansão da OTAN em direção ao leste é vista não como burocracia diplomática, mas como ameaça existencial. A invasão da Ucrânia em 2022 foi o ato revisionista mais explícito desde 1945 na Europa: mudança de fronteiras pela força, anexação de territórios por decreto, negação da identidade nacional de um povo. Era exatamente o que a ordem pós-Guerra Fria havia declarado inadmissível.
Nenhum ator desafia a ordem estabelecida com a mesma escala e sofisticação que Pequim. A China rejeita a primazia americana no Indo-Pacífico, reivindica Taiwan como território irrenunciável, ocupa e militariza ilhas no Mar do Sul da China e constrói instituições paralelas às ocidentais — o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) e a Iniciativa Cinturão e Rota são as mais visíveis. Xi Jinping quer reescrever as regras do comércio, da tecnologia e da governança global para favorecer um modelo autoritário-capitalista. Seu objetivo de longo prazo é estrategicamente transparente: tornar o século XXI chinês.
Teerã contesta a ordem no Oriente Médio com uma combinação de ideologia teocrática e pragmatismo imperial. A oposição a Israel e à presença americana na região não é retórica — é doutrina de Estado. O Irã financia e arma proxies em quatro países: Hezbollah no Líbano, Houthis no Iêmen, Hamas em Gaza e milícias no Iraque. Seu programa nuclear permanece estrategicamente ambíguo — avançado o suficiente para ser dissuasório, nunca cruzando formalmente o limiar que forçaria resposta militar imediata. O objetivo é expulsar os EUA da região e construir uma esfera de influência xiita e anti-hegemônica do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico.
Kim Jong-un dirige o único regime dinástico do mundo dotado de armamento nuclear. Pyongyang desafia sistematicamente o regime de não-proliferação, usa ameaças nucleares para garantir a sobrevivência do clã Kim e extorquir concessões econômicas. O que distingue a Coreia do Norte dos demais membros do eixo é a profundidade de sua integração militar com a Rússia: desde 2024, Pyongyang fornece munições de artilharia em escala industrial e, segundo relatórios de inteligência ocidentais, enviou dezenas de milhares de soldados para combater na Ucrânia — recebendo em troca tecnologia espacial e militar que de outra forma jamais obteria.
Como o eixo colabora
Seria impreciso chamar de aliança formal o que existe entre esses quatro países. Não há um tratado coletivo de defesa, nenhum estado-maior conjunto. O que existe é uma convergência estrutural de interesses e uma teia crescente de interdependências que funciona, na prática, como aliança de fato.
A Rússia recebe drones Shahed e mísseis balísticos do Irã para usar na Ucrânia — uma transferência de tecnologia bélica em escala que altera o equilíbrio do campo de batalha. Da Coreia do Norte chega munição de artilharia — obuses de 152 mm em quantidades que a indústria de defesa russa, pressionada pelas sanções, não consegue repor. Em troca, Pyongyang ganha acesso a tecnologia de satélites e, possivelmente, sistemas de propulsão para mísseis de longo alcance.
A China, por sua vez, compra petróleo russo com desconto substancial — sustentando as finanças de Moscou enquanto as exportações para o Ocidente colapsam — e fornece componentes de duplo uso que alimentam tanto a indústria civil quanto o complexo militar-industrial russo. Pequim serve como retaguarda econômica do eixo: suas relações comerciais com Irã e Rússia tornaram as sanções ocidentais significativamente menos letais do que seriam num mundo sem China.
A coordenação política completa o quadro. No Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China vetam ou bloqueiam sistematicamente resoluções que contrariem os interesses do eixo. No BRICS — expandido para incluir Irã, Etiópia, Emirados e outros — articulam narrativas de multipolaridade e alternativas ao dólar como moeda de reserva. A evasão de sanções ocorre por redes financeiras que passam por Xangai, Dubai, Istambul e Pequim.
Onde isso vai parar
A determinação desse eixo já produziu um efeito colateral que o mundo esperava não voltar a ver: uma corrida armamentista global de escala e velocidade que remete às vésperas da Segunda Guerra Mundial. A Europa gasta mais em defesa do que em qualquer momento desde o fim da Guerra Fria. O Japão rearmou-se e dobrou seu orçamento militar. A Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Polônia acumulam capacidade de guerra em ritmo acelerado. Os EUA reposicionam forças e revisam doutrinas para cenários de conflito simultâneo em dois teatros — Europa e Indo-Pacífico.
A pergunta que nenhum analista consegue responder com segurança é: onde isso para? Há três cenários plausíveis. No mais otimista, o eixo implode sob o peso de suas próprias contradições — a Rússia enfraquecida pela guerra, a China pressionada por uma economia que desacelera, o Irã desestabilizado por tensões internas — e uma nova negociação de ordem global se torna possível. No mais provável, o mundo se bifurca definitivamente em blocos concorrentes, com décadas de competição sistêmica, armamento crescente e crises periódicas controladas à beira do abismo. No mais sombrio, um erro de cálculo — em Taiwan, no Báltico, no estreito de Ormuz — transforma uma crise regional em confronto entre potências nucleares.
A história não determina os resultados. Mas ela oferece paralelos que deveriam tirar o sono dos estadistas: em 1939, também havia um eixo de potências revisionistas insatisfeitas com a ordem do pós-guerra anterior, também havia uma corrida armamentista que todos juravam ser apenas dissuasória, e também havia a esperança de que a racionalidade prevaleceria. Não prevaleceu.
Fontes e referências
- MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. W. W. Norton, 2001 (atualizado 2014).
- BRANDS, Hal; BECKLEY, Michael. Danger Zone: The Coming Conflict with China. W. W. Norton, 2022.
- KAGAN, Robert. "The Return of History and the End of Dreams". Policy Review, 2008.
- IKENBERRY, G. John. A World Safe for Democracy. Yale University Press, 2020.
- TRENIN, Dmitri. Russia's Lone Stand. Carnegie Moscow Center, 2022.
- NAZARI, Haleh. "Iran's Proxy Network and Regional Hegemony". Middle East Journal, vol. 77, 2023.
- GAUSE, F. Gregory. "The Kingdom in the Middle: Saudi Arabia and the New Geopolitics". Foreign Affairs, maio/junho 2024.
- LANKOV, Andrei. The Real North Korea. Oxford University Press, 2013.
- NATO Intelligence Fusion Centre. North Korean Military Cooperation with Russia. Relatório classificado parcialmente divulgado, 2024.
- United Nations Panel of Experts on North Korea. Final Report S/2024/215. ONU, março 2024.
- SIPRI. World Military Expenditure Report 2025. Stockholm International Peace Research Institute, 2025.
- U.S. Defense Intelligence Agency. China Military Power 2024. DIA, 2024.

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