Numa revelação que deveria sacudir o debate público, mas que corre o risco de ser engolida pelo ruído do noticiário cotidiano, o Pentágono elevou silenciosamente o nível de alerta sobre atividades de espionagem israelense contra os Estados Unidos à sua classificação mais alta: "crítico". A informação, divulgada primeiro pela NBC News e confirmada pelo The New York Times, representa um dos reconhecimentos mais explícitos já feitos pelo establishment de segurança americano sobre o alcance das operações de inteligência conduzidas pelo seu principal aliado no Oriente Médio.
O que o Pentágono realmente sabe
Segundo fontes ouvidas pela NBC News e pelo New York Times, a Agência de Inteligência de Defesa (DIA, na sigla em inglês) emitiu nas últimas semanas um novo documento de avaliação de contraespionagem, classificando Israel no patamar máximo de ameaça. O documento, conforme relatado, é composto por sete páginas e inclui gráficos detalhando as capacidades israelenses de coleta humana e técnica de inteligência — descritas como estando em nível "crítico".
As mesmas fontes indicaram que a reação prática do Pentágono deverá ser um aumento do escrutínio sobre funcionários americanos que viajam a Israel ou mantêm reuniões com representantes israelenses. Conforme o New York Times, a decisão de elevar o nível de alerta veio após relatos de que softwares de interceptação de comunicações foram instalados nos celulares de funcionários americanos que operavam em território israelense.
O contexto é relevante: a elevação do alerta coincide com um período de tensão crescente entre Washington e Tel Aviv em torno da guerra com o Irã e das campanhas militares israelenses no Líbano. Conforme a NBC News, Trump e Netanyahu protagonizaram uma ligação telefônica tensa na semana anterior à divulgação da notícia — e Israel estaria tentando, segundo as avaliações internas americanas, monitorar as deliberações mais íntimas do governo Trump sobre o Oriente Médio.
A negação ritual e o peso do lobby
A reação foi previsível. A Embaixada de Israel em Washington declarou que as informações sobre espionagem são "completamente falsas", com um porta-voz acrescentando que "Israel não coleta inteligência contra os Estados Unidos". A Casa Branca, por sua vez, também se apressou a rejeitar a reportagem, com um funcionário afirmando que "toda essa história é falsa".
É aqui que o peso do lobby israelense sobre a política americana torna-se impossível de ignorar. O Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel, o AIPAC, é amplamente reconhecido como um dos grupos de pressão mais poderosos de Washington — talvez o mais influente de todos quando se trata de política externa. Conforme pesquisadores como John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Stephen Walt, da Harvard Kennedy School, o AIPAC tem capacidade de recompensar legisladores alinhados aos interesses israelenses e punir aqueles que ousam criticar Tel Aviv.
Conforme levantamentos do The Intercept, somente em 2024 a AIPAC investiu mais de 100 milhões de dólares em campanhas políticas nos Estados Unidos, com presença em mais de 80% de todas as disputas eleitorais. Em um ambiente assim, não causa surpresa que tanto o governo americano quanto o israelense rejeitem prontamente qualquer acusação formal — o custo político de confirmar seria alto demais.
Jonathan Pollard: quando a espionagem virou caso de Estado
A denúncia atual não surge do nada. O histórico de operações de inteligência israelenses contra os Estados Unidos é longo e bem documentado. O caso mais emblemático permanece sendo o de Jonathan Pollard, ex-analista civil da inteligência da Marinha americana, preso pelo FBI em 1985 após ser descoberto fornecendo documentos secretos a Israel.
Conforme registros judiciais americanos, Pollard repassou a Tel Aviv, entre junho de 1984 e novembro de 1985, milhares de documentos classificados — incluindo fotos de satélite, informações sobre o armamento soviético e dados sobre as capacidades de guerra química do Iraque e da Síria. Em troca, recebia pagamentos regulares de dezenas de milhares de dólares e presentes.
Condenado à prisão perpétua em 1987, Pollard cumpriu 30 anos antes de ser solto em liberdade condicional em 2015. Em 2020, quando as restrições de viagem foram encerradas, partiu para Israel em um avião fretado pelo magnata americano Sheldon Adelson — um dos maiores financiadores do lobby pró-Israel. Foi recebido no aeroporto de Ben Gurion pelo próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que lhe entregou pessoalmente a carteira de identidade israelense, saudando-o com a frase "Está em casa".
O episódio revelou uma contradição difícil de ignorar: Israel tratou um espião condenado por trair os Estados Unidos como um herói nacional. E nenhum esforço diplomático sério foi suficiente para punir Tel Aviv ou exigir reparações além de uma compensação financeira irrisória negociada na época.
O USS Liberty: quando Israel atacou um navio americano e saiu impune
Se o caso Pollard ilustra a espionagem israelense dentro do território americano, o episódio do USS Liberty representa talvez o exemplo mais chocante de como Israel foi capaz de agir militarmente contra seu próprio aliado — e sair praticamente ileso.
Em 8 de junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, aviões de combate e lanchas torpedo israelenses atacaram o USS Liberty, um navio de inteligência da Marinha americana que operava em águas internacionais próximas à costa do Sinai. Conforme registros históricos da Marinha dos EUA e da Britannica, o ataque durou aproximadamente duas horas e resultou na morte de 34 marinheiros americanos e no ferimento de outros 171. O navio foi atingido por metralha, napalm, foguetes e torpedos.
Detalhe fundamental: segundo relatos da época, aeronaves israelenses de reconhecimento haviam sobrevoado o Liberty repetidas vezes nas horas anteriores ao ataque, em condições de boa visibilidade. A bandeira americana estava içada. O navio estava claramente identificado. Ainda assim, o ataque aconteceu — e os pilotos israelenses inclusive bloquearam as tentativas de comunicação de rádio da tripulação americana.
Israel alegou "identificação equivocada" e apresentou uma apologia formal em 10 de junho de 1967. O governo dos Estados Unidos aceitou publicamente a desculpa, embora tenha rejeitado a explicação em privado. Conforme a National Security Agency (NSA) e documentos posteriormente revelados, vários oficiais americanos de alto escalão acreditavam que o ataque foi deliberado — possivelmente para encobrir operações militares israelenses que os Estados Unidos, se informados, teriam tentado barrar.
O caso do USS Liberty é frequentemente citado por analistas e jornalistas de investigação — entre eles Tucker Carlson — como prova histórica de que a relação entre Israel e os EUA é, na prática, muito menos simétrica do que a narrativa oficial sugere. Israel pagou indenizações de cerca de 3,3 milhões de dólares pelos mortos e 3,5 milhões pelos feridos — valores irrisórios para um ataque dessa magnitude. Jamais houve investigação conjunta independente. A NSA manteve por décadas documentos sobre o incidente classificados como secretos.
A narrativa que não se sustenta
Diante de tudo isso, a alegação recorrente do governo israelense — de que Israel não espiona aliados, apenas governos hostis — é simplesmente desmentida pelos fatos históricos. O caso Pollard sozinho seria suficiente para derrubar essa afirmação: foi uma operação de espionagem estruturada, gerenciada diretamente por um oficial da embaixada israelense em Washington, contra o maior aliado de Israel no mundo.
A avaliação mais recente do Pentágono vai além: segundo as fontes ouvidas pela NBC News e pelo New York Times, o esforço israelense recente de vigilância sobre funcionários americanos excedeu significativamente o que seria considerado espionagem normal entre países aliados. Não se trata, portanto, de um episódio isolado ou de operações de rotina — mas de uma escala e agressividade que preocuparam o suficiente para justificar a reclassificação ao mais alto nível de ameaça.
O padrão é consistente ao longo de décadas: Israel age segundo seus próprios interesses estratégicos, incluindo contra os Estados Unidos quando conveniente; quando descoberto, nega com veemência; e quando a pressão aumenta, o lobby em Washington trabalha para minimizar consequências políticas e diplomáticas. A elevação do alerta pelo Pentágono é um sinal de que, pelo menos nos bastidores, a paciência americana tem limites — mesmo que publicamente ninguém ouse dizer isso em voz alta.
Fontes
- NBC News — "Pentagon raised threat of Israeli spying on U.S. to highest level, sources say" (junho de 2026)
- The New York Times — Confirmação independente da reclassificação da DIA (junho de 2026)
- Al Jazeera — "Pentagon said to raise threat level on Israel spying to 'critical'" (junho de 2026)
- The Jerusalem Post — Declaração da Embaixada de Israel negando as acusações (junho de 2026)
- Times of Israel — Reportagem sobre a reclassificação e o caso Pollard (junho de 2026)
- Correio Braziliense — "Ex-espião que passou 30 anos preso nos Estados Unidos chega a Israel" (dezembro de 2020)
- Jornal de Notícias (JN) — "Depois de 35 anos preso por espiar os EUA, Jonathan Pollard regressa a Israel" (dezembro de 2020)
- NPR — "Jonathan Pollard, Cold War Spy Who Spent 30 Years In U.S. Prison, Arrives In Israel" (dezembro de 2020)
- Britannica — "USS Liberty incident | Facts, Deaths & Investigation"
- The Intercept (EUA) — "Fifty Years Later, NSA Keeps Details of Israel's USS Liberty Attack Secret" (2017)
- HISTORY.com — "Israel attacks USS Liberty | June 8, 1967"
- U.S. Naval History and Heritage Command — "The 'Six-Day War' and USS Liberty"
- The Intercept Brasil — "Apoie Israel ou perca seu mandato: veja táticas do lobby nos EUA" (outubro de 2023)
- Mearsheimer, J. & Walt, S. — O Lobby de Israel e a Política Externa dos EUA (2007)
- UNESP — "O AIPAC e sua influência na política externa dos Estados Unidos" (repositório acadêmico)
- Le Monde Diplomatique Brasil — "Como Israel espiona norte-americanos" (2018)

Nenhum comentário:
Postar um comentário