O Irã, de Ciro a Khamenei: Uma Jornada pela Alma Iraniana - Fé e sobrevivência

 


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Por milênios, o Irã existe. Não apenas como Estado, não apenas como território — mas como ideia viva, como consciência coletiva que sobreviveu a tudo que a história foi capaz de inventar para destruí-la. Impérios vieram, queimaram, mataram, rezaram sobre as cinzas e partiram. O Irã ficou.
 
Para compreender o Irã moderno — suas tensões com o Ocidente, sua teologia política, sua obstinação soberana — é preciso descer fundo no tempo. Não ao século XX. Não à Revolução de 1979. É preciso ir até onde a memória de um povo começa a se tornar osso.
 
 
O Trauma Mais Antigo: O Genocídio Esquecido
 
Há um massacre que o Ocidente raramente menciona quando fala do Irã, talvez porque está registrado num livro que o próprio Ocidente venera. No Livro de Ester, a Bíblia narra como os judeus do Império Persa, com autorização do rei Assuero, exterminaram 75 mil persas em um único dia. O episódio é celebrado até hoje na festa judaica de Purim. Para os persas, aquele foi um dos primeiros registros de violência em massa sofrida em seu próprio território — e perpetrada com a bênção do poder imperial que os governava.
 
A história começa, portanto, com sangue. E nunca deixou de ser regada com ele.
 
 
O Choque com a Grécia: O Primeiro Ocidente
 
Quando Dario e depois Xerxes marcharam contra a Grécia, não era apenas conquista territorial — era o embate entre dois modelos de mundo. Os gregos construíram sobre esse conflito toda uma narrativa civilizacional: de um lado, a democracia, a razão, a liberdade; de outro, o despotismo oriental, a massa anônima, a escravidão dourada. Essa narrativa fundou o Ocidente. E fundou, também, a posição que o Irã ocuparia para sempre nesse imaginário: o Outro. O Inimigo. O Bárbaro.
 
O que raramente se conta é que o Império Aquemênida era, para os padrões da época, extraordinariamente tolerante. Ciro, o Grande, libertou os judeus cativos na Babilônia e é o único estrangeiro chamado de “messias” na Bíblia hebraica. O Irã, desde sempre, foi mais complexo do que a caricatura grega permitia.
 
Mas a caricatura venceu. E o Ocidente a herdou intacta.
 
 
O Martírio Como Espinha Dorsal
 
Em 680 d.C., no deserto de Karbala, Hussein ibn Ali — neto do profeta Maomé — foi cercado, isolado e massacrado com seus companheiros por forças muito superiores. Ele sabia que morreria. Avançou assim mesmo.
 
Esse momento fundou o Xiismo não apenas como seita, mas como cosmologia. O martírio em Karbala não é para o xiita uma derrota histórica — é a prova de que resistir ao tirano, mesmo sem chances, é o ato mais sagrado possível. A morte justa é mais poderosa que a vitória covarde.
 
Compreender isso é compreender por que as sanções econômicas não funcionam como o Ocidente espera. Por que jovens iranianos foram aos campos minados da guerra contra o Iraque carregando chaves de plástico — símbolos do paraíso que os aguardava. Por que a lógica da dissuasão ocidental, construída sobre o medo da morte, encontra no Irã uma cultura que processou a morte de maneira fundamentalmente diferente.
 
O martírio não é irracionalidade. É outra racionalidade.
 
Do Zoroastrismo ao Xiismo: O Grande Satã Tem Raízes Antigas
 
Antes do islã, o Irã era zoroastrista. E o zoroastrismo enxergava o cosmos como um conflito eterno entre Ahura Mazda — a luz, a verdade, a ordem — e Ahriman — as trevas, a mentira, o caos. O mundo era campo de batalha moral permanente, e cada ser humano era obrigado a escolher um lado.
 
Quando o islã xiita se enraizou no Irã, absorveu essa estrutura. O universo continuou sendo um duelo entre o justo e o opressor. E quando Khomeini chamou os Estados Unidos de “Grande Satã”, não estava apenas usando retórica política. Estava falando numa linguagem de 2.500 anos — a linguagem de um povo que sempre dividiu o mundo entre forças de luz e forças de dominação.
 
A diferença é que desta vez, o Satã tinha porta-aviões.
 
 
Os Traumas que Nunca Cicatrizaram
 
A invasão mongol do século XIII dizimou entre um terço e metade da população iraniana. Cidades milenares foram apagadas. O Acordo Anglo-Russo de 1907 dividiu o território persa entre Inglaterra e Rússia como se fosse herança de família — sem que nenhum iraniano fosse consultado. Em 1953, a CIA e o MI6 derrubaram Mossadegh, o primeiro-ministro democraticamente eleito que ousara nacionalizar o petróleo. Durante a guerra contra o Iraque, o Ocidente forneceu armas químicas a Saddam Hussein, usadas contra soldados e civis iranianos — e ficou em silêncio. Em 1988, um navio de guerra americano abateu um avião civil iraniano com 290 pessoas a bordo. O oficial responsável recebeu uma medalha.
 
Cada um desses eventos, isolado, seria trauma suficiente para uma geração. Juntos, ao longo de séculos, constroem algo diferente: uma certeza. A certeza de que o mundo exterior não vem com propostas — vem com correntes.
 
A Ilusão de uma conciliação
 
O Ocidente continua tentando entender o Irã através de categorias que o Irã recusa. Moderados versus radicais. Reformistas versus conservadores. Como se o problema fosse apenas de liderança — como se um governo diferente em Teerã transformasse séculos de memória coletiva.
 
Mas o conflito com o Ocidente não é conjuntural. É estrutural. O Irã não resiste ao Ocidente porque tem um regime teocrático. O regime teocrático existe, em parte, porque o Irã resiste ao Ocidente. A causa e o efeito foram invertidos na narrativa dominante.
 
Uma civilização que foi invadida pelos gregos, pelos árabes, pelos mongóis, pelos britânicos e pelos americanos — e sobreviveu a todos — não desenvolveu resiliência por acidente. Desenvolveu-a como condição de existência.
 
Conclusão: Remover os Óculos
 
Ninguém outorgou ao Ocidente o direito moral de julgar outras civilizações por simplesmente serem diferentes. A ideia de que existe uma hierarquia cultural com a Europa no topo — e que os demais povos devem ser avaliados pelo quanto se aproximam desse modelo — não é universalismo. É etnocentrismo com pretensões filosóficas.
 
O Irã é hostil ao Ocidente não porque é primitivo, não porque é fanático, não porque não “evoluiu”. É hostil porque tem memória. Porque sabe, empiricamente, o que acontece quando baixa a guarda.
 
Ver isso com clareza exige remover os óculos eurocêntricos — e aceitar que a história do mundo não começa em Atenas, não culmina em Washington, e não tem um único sentido possível.
 
Fontes:
Heródoto, Histórias; Bíblia Hebraica, Livro de Ester; Ali Shariati, Martyrdom; Vali Nasr, The Shia Revival; Stephen Kinzer, All the Shah’s Men; Nikki Keddie, Modern Iran; Ervand Abrahamian, A History of Modern Iran; Seymour Hersh, reportagens sobre a guerra Irã-Iraque.

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