A Alemanha desperta novamente

 


A Alemanha está se rearmando em uma velocidade que não víamos desde os anos 1930. Após décadas de pacifismo constitucional quase religioso, Berlim anunciou um fundo especial de 500 bilhões de euros para defesa e infraestrutura — uma ruptura histórica com o passado. O país que por 80 anos pediu perdão pelas guerras agora discute mísseis de longo alcance, divisões blindadas e presença militar permanente nas fronteiras do leste.

 

Observo isso e me pergunto: a narrativa oficial — de que tudo é resposta à ameaça russa — é realmente toda a história?

 

Porque quando analiso a geopolítica com frieza, vejo uma equação diferente emergindo no horizonte.

 

A Alemanha é uma potência industrial sem recursos energéticos suficientes. A Rússia é um território de recursos imensuráveis sem capacidade industrial competitiva. Durante décadas, o Nord Stream era a expressão física dessa complementaridade natural — gás russo, fábricas alemãs, prosperidade mútua. Os Estados Unidos sabotaram esse gasoduto. O próprio Biden praticamente admitiu. Seymour Hersh documentou. E Berlim... ficou em silêncio.

 

Esse silêncio me diz mais do que qualquer discurso oficial.

 

Agora projeto esse cenário dez anos à frente. Os EUA sob Trump — ou qualquer variante populista que o suceda — continuam tratando a Europa como vassala, impondo tarifas, exigindo gastos militares e retirando garantias de segurança. A China avança tecnológica e economicamente em ritmo que o Ocidente não consegue acompanhar. E a Alemanha se vê espremida: sem energia barata, sem mercado americano garantido, sem autonomia estratégica real.

 

Nesse cenário, uma aproximação germano-russa deixa de ser impensável e passa a ser racional.

 

Uma Alemanha rearmada, tecnologicamente superior, unida à vastidão de recursos russos formaria um bloco continental capaz de se equilibrar tanto contra Washington quanto contra Pequim. Seria o pesadelo que Brzezinski descreveu em seus livros — a fusão do poder industrial europeu com o poder territorial eurasiático. Uma massa geopolítica que nenhuma potência oceânica conseguiria dominar.

 

Sei que isso parece ficção científica hoje. Mas em 2010, também parecia ficção que a Alemanha gastaria meio trilhão de euros em rearme, que os EUA abandonariam aliados na Ucrânia ou que a OTAN viveria sua maior crise existencial em tempo de paz.

 

A história não pede permissão. E as alianças mais improváveis frequentemente nascem não da afeição, mas da aritmética fria do poder. Talvez um novo líder populista surja diante de uma opinião pública historicamente inflamável.

 

Estou errado? Talvez. Mas o tabuleiro que vejo diante de mim sugere que o século XXI terá sua reviravolta mais surpreendente não em Pequim, não em Washington — mas em Berlim.

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