O silêncio que adoece: Como o ambiente das Forças Armadas provoca transtornos mentais em seus militares

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“Quem está dentro sabe: o negócio é punk.”


A frase não é de um pesquisador, nem de um relatório oficial. É da Yasmin, militar que passou quase onze anos na Marinha do Brasil e decidiu pedir baixa após desenvolver burnout, crises de ansiedade e um esgotamento emocional que ela mesma descreve como impossível de ignorar. Em maio de 2026, ela publicou um vídeo nas redes sociais que viralizou — e tocou uma ferida que as instituições militares preferem manter fechada.


“Hoje eu vou pendurar a minha farda por uma vida que não me adoeça”, afirmou Yasmin, formada em Psicologia, ao encerrar o relato emocionado em que criticou o ambiente marcado por arbitrariedades, excesso de cobranças e ausência de propósito coletivo. “E ali a gente normaliza a exaustão”, disse ela, descrevendo a cultura institucional que transforma o sofrimento em rotina tolerável — até que deixa de ser.


O caso de Yasmin não é isolado. É sintomático.


 Uma crise que se esconde nos quartéis


Em janeiro de 2024, o Ministério da Defesa admitiu, ao lançar o Programa de Prevenção e Vigilância em Saúde Mental das Forças Armadas (PPVSMFA), que não existia até então nenhum estudo abrangente e atualizado sobre o tema. A lacuna é reveladora: durante décadas, a saúde mental dos militares foi tratada como assunto menor — ou pior, como sinal de fraqueza incompatível com a farda.


Os números, quando aparecem, assustam.


Pesquisa publicada no SciELO Brasil identificou que 43,6% dos jovens recrutas recém-incorporados ao serviço militar obrigatório já apresentavam transtornos mentais comuns — ansiedade e depressão — logo nos primeiros meses de serviço. O próprio ambiente do quartel foi apontado como fator causal.


Entre policiais militares — categoria que compartilha com as Forças Armadas a mesma lógica hierárquica e o mesmo código de silêncio —, os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública  2025 registraram 126 suicídios em 2024. A taxa entre policiais é de 0,3 por 1.000 profissionais da ativa, considerada acima da média da população geral. O dado mais alarmante: em 2024 pela primeira vez na história, mais policiais civis e militares morreram por suicídio do que por homicídio fora de serviço - invertendo a lógica que o perigo maior vem das ruas.


 A Marinha: quando o mar aprisiona a mente


A Marinha carrega uma especificidade cruel: o confinamento em alto-mar. Pesquisa publicada pela EDUFBA sobre militares embarcados da Marinha do Brasil revela que a rotina a bordo representa uma “instituição total” — onde trabalho, descanso, alimentação e convívio social ocorrem sob supervisão rígida, sem qualquer espaço privado ou autonomia pessoal.


O estudo descreve uma espécie de prisão invisível: “dotado de sua história de vida e de sua subjetividade, o militar muitas vezes encontra-se prisioneiro de um regime de efeito totalizante, sem mesmo notar.” Longe da família por semanas ou meses, o marinheiro não apenas trabalha na Marinha — sua identidade se confunde com a da instituição.


Os efeitos colaterais são graves e pouco documentados: isolamento social progressivo, perda de vínculos afetivos externos e crise de identidade ao deixar o serviço ativo. Entre os militares mais experientes, pesquisadores constataram que poucos mantêm amizades fora do universo militar — sinal do quanto a vida castrense devora o indivíduo por completo.


Pesquisa da Escola de Guerra Naval identificou ainda índices preocupantes de síndrome de burnout entre profissionais de saúde da própria Marinha — aqueles que deveriam cuidar dos outros estão eles mesmos adoecendo sob pressão de jornadas excessivas e demanda crescente.


O relato de Yasmin, psicóloga e ex-militar da Marinha, não poderia ser mais emblemático: foi justamente quem tinha o conhecimento técnico para nomear o sofrimento quem teve coragem de torná-lo público. Quantos outros, sem esse vocabulário ou sem essa visibilidade, seguem em silêncio?


 Exército, Marinha e Aeronáutica: cada força, a mesma falha


O problema não é de uma força só. É estrutural, e atravessa o Exército, a Marinha e a Força Aérea com a mesma lógica implacável.


No Exército, as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e as missões nas fronteiras da Amazônia expõem soldados a traumas repetidos em condições de isolamento extremo. Militares destacados em regiões remotas passam semanas sem contato com a família — fator que potencializa a exaustão emocional e o risco de colapso psíquico. A cultura de que “reclamar é fraqueza” segue intocada em muitas unidades, enquanto os serviços de apoio psicológico são racionados.


Na Marinha, como descrito acima, o confinamento em alto-mar cria condições de adoecimento que sequer possuem regulamentação própria — ao contrário do trabalho confinado civil, protegido pela CLT. Marinheiros são submetidos a regras que protegeriam qualquer trabalhador civil, mas que para eles simplesmente não existem. A Marinha não tem normas humanizadoras específicas para o confinamento embarcado — e isso é, por si só, uma negligência institucional documentada.


Na Força Aérea, a pressão por desempenho técnico impecável — em um ambiente onde erros custam vidas — gera níveis crônicos de ansiedade raramente reconhecidos institucionalmente. O silêncio sobre saúde mental é, ali também, uma exigência tácita da cultura organizacional: falar sobre fragilidade pode significar ser retirado de missões ou ver a carreira estagnada.


Em todas as três forças, o padrão se repete: "a hierarquia sem espaço para contestação" pune quem demonstra vulnerabilidade; o contato permanente com situações extremas deixa marcas que o treinamento não foi feito para apagar; e a cultura do silêncio garante que o sofrimento permaneça invisível — até que se torne uma estatística de suicídio.


A omissão que tem endereço


Por décadas, o sistema de saúde das três forças operou com foco curativo, não preventivo — tratando crises já instaladas em vez de evitá-las. Não havia banco de dados unificado, não havia protocolo nacional de triagem psicológica, não havia política sistemática de acompanhamento.


O PPVSMFA, criado em 2024, é o primeiro passo formal nessa direção — e também uma confissão tardia. O relatório do Ministério da Defesa de 2025 estabeleceu como meta que todas as regiões militares tenham equipes permanentes de saúde mental até 2027. O fato de isso ainda ser uma meta, e não uma realidade, diz tudo sobre décadas de negligência.


Enquanto isso, o suporte disponível é insuficiente: ao menos um psicólogo para cada 700 militares — proporção classificada pela Organização Mundial da Saúde como insustentável.


O que precisa mudar


Yasmin deixou a Marinha. Levou consigo onze anos de serviço, um burnout documentado e a coragem de dizer em voz alta o que muitos sabem e poucos falam. “Agora não mais Yasmin militar, mas Yasmin psicóloga, neuropsicóloga, terapeuta e tudo o que eu ainda posso ser nessa vida”, concluiu.


Essa frase carrega uma acusação implícita: a instituição não deixava espaço para ela ser mais do que a farda.


A crise de saúde mental nas Forças Armadas não é um problema de soldados fracos. É um problema de instituições que tratam seres humanos como recursos operacionais — e cobram o preço mais alto quando esses recursos entram em colapso.


Mudar isso exige mais do que portarias. Exige que o Exército, a Marinha e a Força Aérea reconheçam que adoecer não é desonra — e que o Estado pare de tratar a saúde mental de quem defende o país como assunto interno de caserna.


FONTES:

Yasmin (vídeo publicado em maio/2026 – Portal Maceió Notícias / Rede Alagoas TV);

Ministério da Defesa (Portaria nº 131/2024 – PPVSMFA); 

Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública); 

SciELO Brasil – transtornos mentais em recrutas (Martins & Kuhn, 2013);

Estudos de Saúde, Ambiente e Trabalho – EDUFBA (confinamento em alto-mar na Marinha); 

Escola de Guerra Naval – Burnout em profissionais de saúde da Marinha; 

Observatório de Segurança Pública – Unicamp (2024).

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