Representação dos programas brasileiros sabotados (Chatgpt).
Há uma regularidade perturbadora na história recente do Brasil: toda vez que o país se aproxima de um salto estratégico real — espacial, nuclear, industrial — algo intervém. Às vezes de fora. Às vezes de dentro. Às vezes são as duas coisas ao mesmo tempo.
Alcântara: O Foguete que Não Podia Voar
Em 22 de agosto de 2003, três dias antes do lançamento programado, o terceiro protótipo do Veículo Lançador de Satélites explodiu na base de Alcântara, no Maranhão. Vinte e um engenheiros e técnicos — os melhores do programa espacial brasileiro — morreram. A plataforma virou cinzas.
A causa oficial foi o acionamento intempestivo de um propulsor. Mas o contexto em torno do acidente nunca fechou completamente. Na semana da tragédia, um número incomum de estrangeiros — muitos norte-americanos — foi registrado hospedado em São Luís. A capital maranhense abrigava indústrias que fabricavam peças do VLS. Nunca se soube se algum desses visitantes esteve nessas fábricas.
Navios estrangeiros foram avistados na Baía de São Marcos, próxima à base, nos dias que antecederam a explosão. A hipótese levantada por analistas: plataformas capazes de emitir sinais eletromagnéticos suficientes para desestabilizar os sistemas do foguete. A ABIN confirmou espionagem francesa no Maranhão, mas concluiu que não houve sabotagem — conclusão que, para muitos, levantou mais perguntas do que respondeu.
Um foguete que coloca satélites em órbita é tecnologicamente idêntico a um míssil balístico de longo alcance. O VLS, se bem-sucedido, colocaria o Brasil no seleto grupo de países com capacidade de desenvolver vetores intercontinentais. Esse salto não era tolerável para certas potências.
Após o desastre, o programa foi paralisado. O VLS-1 V04, com 70% de sua estrutura concluída, foi cancelado. Em 2019, o Brasil assinou um Acordo de Salvaguardas Tecnológicas com os Estados Unidos que proíbe o país de usar os recursos obtidos com a exploração de Alcântara para desenvolver seu próprio foguete lançador — e veda parcerias com países como a China. Um acordo que a CartaCapital definiu como o atestado de óbito do programa espacial brasileiro.
O Almirante e o Agente da CIA ao Lado
Othon Luiz Pinheiro da Silva é o cientista mais importante que o Brasil já produziu na área de defesa e energia. Formado em Engenharia Naval pela Escola Politécnica da USP e especializado em engenharia nuclear no MIT, ele foi incumbido, em 1979, de uma missão secreta: desenvolver tecnologia nacional de enriquecimento de urânio, longe dos olhos das grandes potências.
Conseguiu. A tecnologia de ultracentrifugação isotópica desenvolvida por Othon é única no mundo — utiliza magnetismo no lugar de mecânica, o que a torna mais eficiente e barata que os modelos alemão, russo e norte-americano. Ela permite produzir combustível nuclear para usinas e, com os ajustes adequados, propulsão para submarinos. O submarino nuclear brasileiro é um projeto que nasceu de sua cabeça.
Enquanto Othon trabalhava, a CIA mantinha um agente chamado Ray H. Allar morando no apartamento ao lado do seu, em São Paulo. O programa nuclear brasileiro era monitorado de perto pelos norte-americanos — que consideravam o domínio do ciclo completo do urânio uma ameaça estratégica.
"Minha prisão serviu para tirar o Brasil do caminho da autonomia — porque o domínio do urânio dá medo às grandes potências."
Em 2015, a Operação Lava Jato prendeu Othon, então com 76 anos, em tratamento contra um câncer. Ficou 113 dias em Bangu 9, numa cela superlotada. Em 2016, tentou suicídio na prisão. O juiz Marcelo Bretas o condenou a 43 anos — a maior pena de toda a Lava Jato. As acusações: corrupção nas obras de Angra 3, baseadas em delações premiadas. As provas materiais: nenhuma comprovada. Em setembro de 2025, a Justiça Federal o absolveu integralmente de uma das ações, reconhecendo que as licitações eram legítimas.
Enquanto Othon estava preso, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos foi paralisado. O submarino nuclear Álvaro Alberto, que colocaria o Brasil entre as raríssimas nações a dominar o ciclo completo da energia atômica, acumulou anos de atraso.
A Engenharia Destruída: R$ 172 Bilhões Enterrados
Antes de 2014, o Brasil tinha algo raro no mundo em desenvolvimento: um punhado de construtoras genuinamente multinacionais. A Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a Camargo Corrêa, a OAS e a Queiroz Galvão construíam barragens, aeroportos, refinarias e hidrelétricas da África à América Latina. A Odebrecht, maior entre elas, havia obtido entre 2011 e 2014 contratos no valor de 7,44 bilhões de dólares só em Angola e nos países vizinhos — financiados pelo BNDES.
Era, em termos práticos, a primeira geração de empresas brasileiras com capacidade real de disputar o mercado global de infraestrutura. Um instrumento de projeção de poder econômico que nenhum outro país do Sul Global possuía nessa escala.
A Lava Jato destruiu tudo isso. Não apenas os executivos corruptos — as empresas inteiras. O valor devolvido aos cofres públicos pela operação foi de aproximadamente R$ 4,5 bilhões. O prejuízo em investimentos que deixaram de acontecer foi de R$ 172 bilhões — quase quarenta vezes mais. A corrupção existia. Mas a forma cirúrgica com que se optou por destruir as empresas em vez de apenas punir seus executivos produziu um resultado que beneficiou exclusivamente o capital estrangeiro, que ocupou o espaço deixado pelas construtoras nacionais.
Economistas da UFRJ foram categóricos: a Lava Jato levou à desestruturação de alguns dos poucos setores em que o capital doméstico era forte e competitivo a nível internacional. No lugar das empreiteiras brasileiras vieram fundos de investimento estrangeiros e empresas globais de infraestrutura. O Brasil terceirizou sua própria reconstrução.
Snowden, Dilma e o Avião Grampeado
Em 2013, Edward Snowden entregou ao jornalista Glenn Greenwald documentos ultrassecretos que provaram o que antes era teoria: o Brasil era um dos alvos preferenciais do sistema de espionagem norte-americano. Não por suspeita de terrorismo. Por interesse econômico e estratégico.
A rede privada de computadores da Petrobras foi invadida pela NSA. Os documentos eram classificados como ultrassecretos e compartilhados apenas com os Five Eyes — EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá e Nova Zelândia. O objetivo era claro: conhecer a estratégia da Petrobras nos leilões do pré-sal antes que o Brasil a executasse — vantagem competitiva direta para as empresas americanas habilitadas nas rodadas de licitação.
O Canadá espionou o Ministério de Minas e Energia por meio do programa OLYMPIA, coletando metadados de telefonemas e e-mails do Ministério. O próprio ministro à época admitiu que o Canadá tinha interesses no setor de mineração brasileiro.
O telefone via satélite do avião presidencial de Dilma Rousseff foi grampeado. A conversa mais privada possível de uma chefe de Estado — a bordo do avião oficial — estava sendo ouvida pela inteligência norte-americana. Ao todo, 29 linhas do alto escalão foram monitoradas, incluindo ministros, o diretor do Gabinete de Segurança Institucional e embaixadores brasileiros em Washington, Genebra, Paris e Berlim.
Dilma cancelou uma visita de Estado aos EUA e discursou na ONU contra a espionagem. Obama prometeu parar. Dois anos depois, o WikiLeaks revelou que a espionagem não havia parado. O Brasil propôs um acordo de reciprocidade sobre interceptação de dados. Os americanos simplesmente ignoraram a proposta.
O Inimigo que Mora Dentro: A Geopolítica da Resignação
Há, porém, uma sabotagem que nenhum serviço de inteligência estrangeiro precisou arquitetar. O almirante Armando Vidigal, um dos mais lúcidos estrategistas que o Brasil produziu, dedicou parte de sua obra a diagnosticá-la: o Brasil é um país de geopolítica conformada.
"Um país que aprendeu a não querer ser grande."
Esse pensamento não é acidente histórico. Ele tem raízes profundas — e se manifesta em frases que se repetem, geração após geração, como se fossem sabedoria:
- "O Brasil é um país pacífico, não precisa de Marinha de guerra."
- "Investir em defesa é tirar dinheiro da saúde e da educação."
- "Submarino nuclear é aventureirismo militar."
- "Foguete lançador é só vaidade — o Brasil não tem inimigos."
- "As construtoras merecem o que aconteceu. Eram todas corruptas."
- "A diplomacia resolve tudo. Não precisamos de poder real."
- "Quem tem riqueza como a nossa não precisa se preocupar com geopolítica."
- "O Brasil é grande demais para ser ameaçado — e pequeno demais para ser potência."
Essas frases constituem a ideologia perfeita para um país que se resigna a exportar minério bruto e importar tecnologia; que destrói suas próprias empresas estratégicas e entrega suas bases a potências estrangeiras; que prende seus cientistas mais brilhantes e cancela seus programas de soberania.
Nenhum inimigo externo precisaria planejar a contenção do Brasil. O país aprendeu a se conter sozinho — e, mais grave, aprendeu a chamar isso de maturidade.
O Brasil tem todos os elementos de uma grande potência: território, população, recursos, posição geográfica, capacidade intelectual demonstrada. Falta apenas a vontade de ser o que é. Essa vontade foi sistematicamente desmontada — às vezes por agentes externos, às vezes por uma cultura que confunde subserviência com paz. A geopolítica conformada não é uma postura filosófica nobre. É a derrota antes da batalha.
Fontes e Referências
- Relatório Final da Investigação do Acidente com o VLS-1 V03 — Comando da Aeronáutica / IAE. aeb.gov.br
- Agência Espacial Brasileira — Histórico do Programa VLS. aeb.gov.br
- Centro de Lançamento de Alcântara — Ministério da Defesa. gov.br
- Acordo de Salvaguardas Tecnológicas Brasil–EUA (2019) — Governo Federal. gov.br
- CartaCapital — "O acordo de Alcântara e o futuro do programa espacial brasileiro". cartacapital.com.br
- Othon Luiz Pinheiro da Silva — histórico e programa nuclear. wikipedia.org
- MALHEIROS, Tânia. Brasil, a Bomba Oculta.
- Marinha do Brasil — Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB). marinha.mil.br
- Tribunal Regional Federal da 2ª Região — processos envolvendo Othon Pinheiro. trf2.jus.br
- DIEESE — Impactos econômicos da Operação Lava Jato. dieese.org.br
- Instituto de Economia da UFRJ — estudos sobre desindustrialização e Lava Jato. ie.ufrj.br
- Glenn Greenwald / The Intercept — documentos Snowden sobre espionagem da NSA. theintercept.com
- NSA — documentos revelados por Edward Snowden. theguardian.com
- Petrobras espionada pela NSA — Fantástico / TV Globo. g1.globo.com
- Discurso de Dilma Rousseff na ONU contra espionagem internacional (2013). g1.globo.com
- WikiLeaks — documentos diplomáticos envolvendo Brasil. wikileaks.org
- Armando Amorim Ferreira Vidigal — obras sobre estratégia e geopolítica brasileira. eceme.eb.mil.br
- Escola Superior de Guerra — estudos sobre soberania, defesa e poder nacional. esg.dbr
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