Encerradas — ou próximas do fim — as frentes abertas em Gaza, no Líbano e no Irã, uma nova hipótese vem ganhando espaço nos círculos estratégicos israelenses: a de que a Turquia se torne o próximo grande obstáculo à segurança de Israel na região. A tese não é marginal. Ela aparece de forma recorrente em declarações de autoridades, artigos de centros de pesquisa alinhados a Telaviv e análises de conflito publicadas por veículos do Oriente Médio, configurando um padrão que merece ser examinado com atenção.
A doutrina da ameaça vizinha
Desde sua fundação, a estratégia de segurança israelense se apoia numa premissa simples: nenhum poder regional rival pode consolidar-se nas fronteiras próximas sem ser neutralizado ou contido. Essa lógica orientou intervenções contra o Egito, a Síria, o Iraque e, mais recentemente, o Irã e seus aliados regionais — o chamado "Eixo da Resistência". O resultado prático, segundo críticos desse padrão, tem sido um entorno fragmentado, com Estados vizinhos enfraquecidos, divididos ou em conflito interno, o que permitiria a Israel operar com margem de manobra ampliada em meio ao caos alheio. É nesse contexto que o chamado projeto do "Grande Israel" — a ideia, defendida por setores da direita nacional-religiosa israelense, de expansão territorial e de influência sobre o espaço que vai do Jordão ao Mediterrâneo, e por vezes além — volta a ser mencionado como pano de fundo ideológico das operações militares em curso.
O choque de dois projetos regionais
É justamente nesse ponto que o projeto israelense esbarra num rival de peso comparável: o neo-otomanismo de Recep Tayyip Erdogan, que busca reconstituir a influência turca sobre antigos territórios do império otomano — do Levante ao Cáucaso, passando pelo Norte da África. Os dois projetos disputam a mesma geografia. Israel aprofundou a cooperação militar com o Chipre e a Grécia, países com animosidade histórica em relação à Turquia, e a criação, em junho de 2026, do Centro de Energia do Mediterrâneo Oriental — reunindo Israel, Estados Unidos, Grécia e Chipre — institucionalizou uma parceria que funciona como provocação direta à doutrina turca do "Pátrio Marítimo" (Mavi Vatan). No Chifre de África, Israel respondeu à aposta turca na Somália reconhecendo a Somalilândia e alinhando-se aos Emirados Árabes Unidos.
A Síria é, hoje, o epicentro dessa disputa. Ao longo de 2025, Israel mostrou-se disposto a usar a força para conter a presença turca no território sírio, atingindo pontos estratégicos em Palmyra, Homs, Suwayda e diretamente em Damasco. Do outro lado, Ancara reivindica influência decisiva sobre o governo pós-Assad e sobre a reconstrução do aparato militar sírio, algo que Telavive interpreta como uma ameaça direta às suas fronteiras norte.
A frase resume a colisão: os dois países passaram a tratar o mesmo espaço como zona de segurança nacional própria, tornando o confronto indireto praticamente inevitável.
"A Turquia é o novo Irã"
A formulação já circula abertamente entre autoridades e ex-autoridades israelenses. Em fevereiro de 2026, durante conferência anual de organizações judaicas norte-americanas, o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett declarou que "a Turquia é o novo Irã", frase que provocou forte reação em Ancara.
A ideia de tratar a Turquia como o inimigo estratégico seguinte não fica restrita a Israel: o jornalista norte-americano Bradley Martin publicou no Wall Street Journal, em março de 2026, o artigo "Uma necessidade urgente de conter a Turquia", defendendo que Estados Unidos e Israel deveriam agir para conter Ancara. Na mesma linha, Michael Rubin, pesquisador do American Enterprise Institute, chegou a perguntar em rede social, em turco, se "Ancara em 2036 será como Teerã em 2026", e defendeu publicamente que Israel poderia considerar um ataque preventivo contra os caças F-16 turcos. São sinais de que, em determinados setores da política externa israelense e de seus aliados, a Turquia já é tratada como adversário em formação, e não apenas como rival diplomático ocasional.
Erdogan e a retórica anti-israelense
Do lado turco, a hostilidade também se intensificou de forma substancial desde o início da guerra em Gaza, que Ancara classifica publicamente como genocídio. Em discurso recente, Erdogan acusou Israel de vincular "sua sobrevivência política à continuação dos conflitos na região" e de "não deixar em paz, particularmente, o Líbano e a Síria", afirmando que as forças de ocupação israelenses mantêm ataques que classificou como ilegais e desumanos contra os palestinos em Gaza.
A escalada verbal se traduziu também em medidas concretas: um tribunal turco decidiu indiciar Netanyahu e outras 35 autoridades israelenses, incluindo o ministro da Defesa Israel Katz e o ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, por seu papel na interceptação naval da flotilha Sumud com destino a Gaza em outubro de 2025, o que elevou ainda mais o tom da crise bilateral — com autoridades israelenses respondendo chamando Erdogan de "tigre de papel". Mais recentemente, Erdogan rejeitou uma proposta israelense de reconhecimento do genocídio armênio, associando o gesto israelense às mortes em Gaza, num episódio que ilustra como cada movimento diplomático entre os dois países passa a ser lido pelo filtro do conflito palestino.
A Turquia é um desafio de outra magnitude
Diferentemente do Irã, a Turquia integra a OTAN, dispõe de um dos maiores exércitos convencionais da aliança, produz seus próprios drones de combate — já exportados e testados em diversos conflitos — e mantém relações econômicas e diplomáticas profundas com Europa, Rússia e Ásia Central. Um confronto direto entre forças israelenses e turcas seria, portanto, incomparavelmente mais custoso do que qualquer operação contra Teerã. Por isso, a hipótese mais provável não é a de guerra aberta, mas de conflito por procuração: o uso de minorias curdas — historicamente próximas de setores da inteligência israelense e em confronto crônico com o Estado turco, seja na Síria, seja no próprio território turco — como linha de frente indireta contra a influência de Ancara. Armar, treinar e apoiar politicamente forças curdas no norte da Síria seria, nessa leitura, uma forma de desgastar o projeto neo-otomano sem expor Israel a um enfrentamento militar direto com um membro da OTAN.
Conclusão
O padrão se repete: antes mesmo de encerrar plenamente a guerra contra o Irã, setores da cúpula de decisão israelense já apontam o próximo alvo estratégico. Para os críticos dessa postura, isso evidenciaria uma lógica de beligerância contínua, na qual a identificação de um novo inimigo regional antecede o fim do anterior. Seja qual for o desfecho das guerras atuais, a rivalidade turco-israelense — alimentada pela disputa na Síria, no Mediterrâneo Oriental e no Chifre de África — tende a ocupar o centro da próxima fase da política externa de Israel na região.
Fontes
- Causa Operária — Turquia pode se tornar o próximo alvo de "Israel", 2026, com base em reportagem da Al Mayadeen (Lea Akil) e entrevista com o analista Mahmoud Allouch.
- Observador — Turquia: o Novo Irão de Netanyahu, por Manuel Castello Branco, 2026.
- The Times of Israel — Erdogan accuses "war-addicted" Israel of tying its political survival to regional conflicts, 2026.
- The Jerusalem Post — sobre o indiciamento de Netanyahu por tribunal turco, abril de 2026.
- The Washington Post / Associated Press — Erdogan rejects Israel's Armenian genocide move and points to Gaza deaths, 2026.

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