A ascensão da família Kim ao poder na Coreia do Norte não ocorreu de forma linear nem garantida. Kim Il Sung fundou o Estado em 1948 como líder de um movimento revolucionário vitorioso contra o Japão, mas seu filho, Kim Jong Il, precisou de décadas de trabalho político dentro do Partido do Trabalho da Coreia até assumir formalmente o comando — e o fez justamente no momento mais frágil da história do país: o início dos anos 1990, quando o colapso da URSS e do bloco socialista extinguiu de uma só vez o principal parceiro comercial e militar da Coreia do Norte.
Esse período, conhecido como Árdua Marcha, expôs a dinastia a uma combinação de vulnerabilidades que, em qualquer outro contexto histórico, poderia ter provocado o colapso do regime. Sem petróleo importado, os tratores e máquinas agrícolas pararam de funcionar; sem mecanização, a produção de alimentos despencou, e a fome — real e documentada, ainda que hoje minimizada pela propaganda oficial — matou milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos intensificavam o cerco econômico e diplomático ao país, na expectativa de repetir com Pyongyang o mesmo desfecho que havia ocorrido com os regimes socialistas do Leste Europeu.
A esse cenário de fragilidade econômica somavam-se outros fatores estruturais que, do ponto de vista de potências estrangeiras interessadas em uma mudança de regime, representavam pontos de pressão evidentes: a ausência de liberdades civis e políticas, o controle rígido sobre o acesso à informação e à internet, a perseguição a práticas religiosas não sancionadas pelo Estado e um atraso tecnológico e produtivo evidente frente à Coreia do Sul, que já despontava como potência industrial. Cada um desses elementos poderia, em tese, ser usado como justificativa — humanitária, política ou estratégica — para uma intervenção externa, uma sanção asfixiante ou um esforço coordenado de desestabilização interna, nos moldes do que se viu em outros regimes derrubados pela combinação de colapso econômico e pressão internacional ao longo do fim do século XX e início do XXI.
Kim Jong Il, e mais tarde Kim Jong Un, enfrentaram, portanto, o mesmo dilema estratégico: como perpetuar o poder de uma família em um Estado isolado, economicamente combalido e cercado por adversários muito mais poderosos, sem repetir o destino de outras ditaduras que caíram justamente por não terem como impedir uma ação militar ou uma pressão externa decisiva?
A resposta: uma garantia que nenhuma sanção pode revogar
A resposta encontrada pela dinastia Kim foi o desenvolvimento de um programa nuclear e de mísseis balísticos que, ao longo das décadas seguintes — e especialmente sob a liderança de Kim Jong Un —, transformou a Coreia do Norte em uma potência atômica declarada, capaz de produzir ogivas nucleares e de desenvolver mísseis intercontinentais com alcance teórico para atingir o território dos Estados Unidos.
Essa conquista tecnológica e militar mudou de forma definitiva o cálculo estratégico de qualquer potência que cogitasse promover uma mudança de regime em Pyongyang. Diferentemente de outros países que enfrentaram intervenções militares diretas, sanções asfixiantes seguidas de colapso, ou pressões que resultaram na derrubada de seus líderes, a Coreia do Norte passou a deter aquilo que nenhuma outra ferramenta diplomática, econômica ou militar convencional consegue neutralizar: a capacidade de infligir uma retaliação nuclear catastrófica a qualquer agressor, incluindo potências como os Estados Unidos.
Esse é o ponto central: por mais que se critique o regime — pela ausência de eleições competitivas, pela repressão religiosa, pelo controle total da informação e pelo histórico de crises alimentares —, nenhuma dessas fragilidades internas hoje é suficiente para produzir uma intervenção externa ou um colapso induzido de fora, porque o custo de qualquer confronto armado direto com a Coreia do Norte se tornou proibitivo. A bomba nuclear neutralizou justamente aquilo que, nos anos 1990, era a maior ameaça à sobrevivência da dinastia: a possibilidade concreta de uma ação militar ou de um cerco tão asfixiante a ponto de forçar uma mudança de regime.
Soberania blindada, independente do julgamento sobre o regime
Esse é o paradoxo central da Coreia do Norte contemporânea: um dos países mais pobres, mais isolados e mais criticados do mundo em matéria de direitos humanos tornou-se, ao mesmo tempo, um dos poucos Estados do planeta com soberania efetivamente inquestionável na prática. Enquanto países muito mais ricos, mais abertos e mais bem avaliados em índices internacionais seguem vulneráveis a pressões diplomáticas, sanções coordenadas ou mesmo intervenções militares — a exemplo de regimes derrubados no Oriente Médio e em outras regiões ao longo das últimas décadas —, a Coreia do Norte opera hoje com um grau de imunidade que nenhuma outra ferramenta política ou econômica proporciona.
Isso não decorre do reconhecimento internacional de sua legitimidade — a RPDC segue sendo alvo de sanções da ONU, de condenações por parte de organismos de direitos humanos e de amplo ceticismo sobre suas instituições formais, incluindo o próprio sistema eleitoral de candidato único que caracteriza o país. O que garante a soberania de fato da Coreia do Norte não é o reconhecimento de sua forma de governo como legítima, nem a aprovação de suas práticas internas, mas sim a constatação prática de que nenhuma potência está disposta a arcar com o custo de uma escalada militar contra um Estado nuclear, por mais isolado e questionável que esse Estado seja em outros aspectos.
Esse cálculo estratégico beneficia diretamente a continuidade da dinastia Kim. Ao contrário de seu avô, que precisou vencer duas guerras contra impérios para garantir a sobrevivência do Estado, e de seu pai, que administrou a transição mais perigosa da história do país em meio à fome e ao colapso do bloco socialista, Kim Jong Un dispõe de uma garantia estrutural que nenhum de seus antecessores teve: a certeza de que, salvo um erro de cálculo catastrófico, seu regime não será derrubado por força externa. Isso desloca o centro de gravidade da legitimação do poder — que antes dependia fortemente do desempenho econômico, da narrativa de libertação nacional e do culto à personalidade construído em torno da resistência anti-imperialista — para um novo pilar, mais concreto e mais difícil de contestar: a capacidade de dissuasão nuclear como garantia última de sobrevivência do Estado e, por extensão, da própria família que o dirige.
Conclusão
A trajetória da Coreia do Norte mostra que o programa nuclear não foi apenas um projeto de defesa nacional, mas o instrumento que resolveu, de forma definitiva, o problema estrutural que rondava a dinastia Kim desde o colapso do bloco socialista: a vulnerabilidade a uma mudança de regime imposta de fora. Fome, ausência de liberdades civis, perseguição religiosa e atraso tecnológico continuam sendo realidades documentadas do país — e seguem alimentando críticas legítimas de organismos internacionais. Mas nenhuma dessas fragilidades é hoje suficiente para ameaçar a permanência da família Kim no poder, porque a arma que garante a soberania do Estado neutraliza justamente o tipo de pressão externa que, no passado, poderia ter explorado essas mesmas fragilidades para provocar um colapso.
Independentemente do nome que se dê ao regime — ditadura, democracia popular ou monarquia disfarçada de república — e das críticas que se façam a ele, a Coreia do Norte tornou-se, gostemos ou não, um dos poucos países do mundo cuja soberania está hoje efetivamente blindada contra qualquer intervenção externa.
Fontes e Leituras Recomendadas
- Instituto Paektu – Brasil — Os norte-coreanos passam fome?, 2020
- Instituto Paektu – Brasil — A Coreia do Norte é uma monarquia?, 2020
- Instituto Paektu – Brasil — A Coreia do Norte é uma ditadura?, 2020
- Instituto Paektu – Brasil — Entenda como funcionam as eleições na Coreia do Norte, 2019
- Instituto Paektu – Brasil — O cristianismo na Coreia do Norte, 2019
- Relatórios de organizações internacionais de direitos humanos e liberdade religiosa — Open Doors, USCIRF, Human Rights Watch
- Análises sobre o desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano e a doutrina Songun

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