No imaginário ocidental, Vladimir Putin é o arquétipo do autocrata implacável — o homem que invadiu a Ucrânia, suprimiu dissidentes e desafiou a ordem liberal internacional. Mas essa narrativa, embora conveniente para os governos da OTAN, ignora uma realidade incômoda: dentro da Rússia, Putin é visto por setores influentes como um político calculista demais, contido demais, até tímido demais diante dos imperativos históricos da nação. Para uma camada significativa da elite militar, nacionalista e religiosa russa, o problema de Putin não é sua brutalidade — é sua moderação.
A guerra que Putin se recusou a vencer
Desde o início da operação militar na Ucrânia, em fevereiro de 2022, Putin foi alvo de críticas internas que raramente chegam às manchetes ocidentais. Figuras como o falecido Yevgeny Prigozhin, ex-chefe do Grupo Wagner, acusaram abertamente o Kremlin de conduzir a guerra com excesso de cautela. Prigozhin chegou a qualificar os generais russos de incompetentes e cobardes, clamando por uma ofensiva total que destruísse a Ucrânia de forma rápida e irreversível. Sua revolta armada de junho de 2023 foi, em grande medida, a expressão extrema de uma frustração compartilhada por setores da elite militar: a percepção de que Putin estava desperdiçando uma oportunidade histórica por não agir com decisão suficiente.
Essa crítica tem fundamento operacional. A estratégia inicial russa apostou em uma guerra relâmpago — a tomada de Kiev em dias, a capitulação ucraniana em semanas. Quando esse plano fracassou, ficou exposta a hesitação do Kremlin em mobilizar plenamente a sociedade russa para um conflito de alta intensidade. A mobilização parcial só foi decretada em setembro de 2022, meses depois do início da guerra.
A impressão de fraqueza foi, paradoxalmente, o produto da contenção de Putin, não de sua agressividade. Ao hesitar em agir com firmeza decisiva, ele permitiu que o Ocidente organizasse sua resposta, armasse progressivamente a Ucrânia e transformasse um conflito regional em um confronto de atrito entre Moscou e a aliança atlântica. Se a guerra tivesse sido rápida e avassaladora, nenhuma chancelaria ocidental ousaria desafiar a Rússia por uma geração. A excitação em agir "com parcimônia" produziu o efeito contrário: deu ao mundo inteiro a sensação de que a Rússia é vulnerável.
Os radicais que acusam Putin de covardia
Os críticos internos de Putin não formam um bloco homogêneo, mas compartilham a convicção de que o presidente está traindo o destino histórico da Rússia. No campo militar e nacionalista, figuras como Igor Girkin — ex-oficial da FSB e comandante nas guerras do Donbas — produziram análises sistemáticas das falhas russas, acusando Putin de interferência política nas decisões táticas e de proteger generais incompetentes por lealdade pessoal. Girkin foi preso em 2023, ostensivamente por "extremismo", mas sua detenção foi amplamente lida como silenciamento de um crítico incômodo à direita do Kremlin.
- ⚔ Facção Militar-Nacionalista Igor Girkin e os "siloviki" radicais exigem guerra total, mobilização irrestrita e obliteração da resistência ucraniana. Acusam Putin de trair soldados russos com restrições políticas impostas ao campo de batalha.
- 📜 Eurasianismo Filosófico Alexander Dugin e sua escola defendem que a Rússia deve abraçar sua identidade de civilização-Estado em guerra permanente contra o liberalismo ocidental. Para Dugin, qualquer acordo de paz seria uma traição não apenas estratégica, mas espiritual e metafísica.
- ☦ Ortodoxia Radical Sacerdotes e intelectuais ortodoxos que acusam o Patriarca Kirill de submissão excessiva ao Estado. Exigem mobilização espiritual plena da nação, pois veem a guerra não como conflito territorial, mas como cruzada pela sobrevivência da cristandade.
No campo intelectual e filosófico, Alexander Dugin defende abertamente que a Rússia deve abraçar sua identidade civilizacional em guerra permanente contra o nihilismo moderno. Para Dugin, a guerra na Ucrânia não é apenas geopolítica: é metafísica. A Rússia não combate apenas a OTAN — combate o individualismo ocidental, a dissolução dos valores tradicionais, o vazio espiritual do mundo pós-cristão. Nessa visão, Putin é um pragmatista excessivamente mundano para uma missão que seria providencial.
Deus, sangue e território: a Igreja que quer mais guerra
A dimensão religiosa desse radicalismo é frequentemente subestimada pelos analistas ocidentais. Dentro da Igreja Ortodoxa Russa, uma facção influente enxerga o conflito na Ucrânia como uma guerra santa — uma cruzada contra o mundo pós-cristão representado pelo Ocidente liberal. O Patriarca Kirill, líder da Igreja, declarou publicamente que os soldados russos mortos na Ucrânia são mártires que lavarão seus pecados com o sangue derramado. Essa retórica não é apenas propaganda: ela ressoa com uma tradição teológica que vê a Rússia como a Terceira Roma, herdeira do Império Cristão Bizantino, com uma missão providencial de defender a cristandade ortodoxa.
Mas Kirill representa, paradoxalmente, a ala moderada dessa corrente. Sacerdotes e intelectuais ortodoxos mais radicais acusam o Patriarca de submissão excessiva ao Estado e de não exigir uma mobilização espiritual plena da nação. Para eles, Putin não apenas está conduzindo mal uma guerra geopolítica — está falhando em cumprir um mandato divino. Nessa cosmologia, a hesitação do Kremlin é pecado, e a moderação é cumplicidade com as forças do mal ocidental.
Violência como herança: o que a história russa produz
Para compreender por que esses radicalismos encontram solo fértil na Rússia, é necessário olhar para a história com olhos desapiedados. A Rússia construiu sua identidade nacional sobre séculos de violência extrema — da expansão mongol à oprichnina de Ivan, o Terrível, das guerras napoleônicas ao Gulag stalinista. A brutalidade não é um desvio na história russa: é um fio condutor.
A capacidade de suportar sofrimento colossal e de infligir destruição em escala civilizacional está gravada no imaginário coletivo russo como prova de grandeza, não de barbárie. Nesse contexto cultural, líderes que hesitam são percebidos como fracos, e fraqueza é uma categoria moral, não apenas estratégica. A história russa recompensou consistentemente os que agem com violência decisiva e puniu os que recuam. Ivan IV, Pedro I, Stálin — todos são figuras contraditórias, mas a narrativa dominante os celebra por terem "salvo" a Rússia à custa de milhões de vidas.
Quando Putin morrer, o próximo poderá ser pior
A questão que os estrategistas ocidentais temem formular em voz alta é: o que vem depois de Putin? A resposta honesta é que provavelmente será algo pior.
Putin, apesar de todo o seu autoritarismo, é um produto da era soviética tardia — pragmático, calculista, orientado por objetivos estratégicos reconhecíveis. Ele joga xadrez, mesmo que de forma brutal. Seus possíveis sucessores, moldados por uma guerra prolongada, por uma geração de jovens russos traumatizados pelo conflito e por décadas de propaganda que glorifica o sacrifício, podem ser muito menos racionais.
Um líder pós-Putin emergindo de um ambiente de guerra prolongada, humilhação nacional percebida e radicalização crescente teria todos os incentivos para adotar as posições hoje consideradas extremas — as mesmas que Girkin, Dugin e as facções radicais da Igreja defendem sem constrangimento. A história russa não favorece a moderação após períodos de crise: favorece o endurecimento. Não há tradição de líderes pós-guerra que se tornem mais brandos. A guerra faz parte do sangue russo não como metáfora, mas como dado civilizacional.
Em um tabuleiro onde Putin é o moderado, onde facções militares exigem guerra total, onde a Igreja prega cruzada e onde a cultura política eleva a brutalidade à condição de virtude cívica — o que estará disposto a fazer o próximo jogador?
Essa pergunta não tem resposta confortável. E é exatamente por isso que o Ocidente se recusa a fazê-la.
Fontes Consultadas
- Girkin, Igor. Declarações públicas via Telegram, 2022–2023.
- Prigozhin, Yevgeny. Declarações públicas e entrevistas ao campo, 2022–2023.
- Dugin, Alexander. A Quarta Teoria Política. Arktos Media, 2012.
- Patriarca Kirill. Sermão na Catedral de Cristo Salvador, Moscou, março de 2022.
- Galeotti, Mark. Putin's Wars: From Chechnya to Ukraine. Osprey Publishing, 2022.
- Snyder, Timothy. The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America. Tim Duggan Books, 2018.
- Figes, Orlando. The Story of Russia. Metropolitan Books, 2022.
- Institute for the Study of War (ISW). Relatórios de acompanhamento do conflito ucraniano, 2022–2024. understandingwar.org
- Soldatov, Andrei; Borogan, Irina. The Compatriots. PublicAffairs, 2019.

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