Havia uma promessa na fumaça das chaminés. Nos anos 1980, quando o Brasil ainda respirava o orgulho industrialista do seu milagre econômico, as fábricas respondiam por 36% de tudo que o país produzia. Era um número que autorizava sonhos: o de uma nação que não apenas exportava matéria-prima, mas transformava, agregava valor, criava empregos qualificados e avançava no tabuleiro global da tecnologia. Quatro décadas depois, esse sonho foi silenciosamente arquivado. A indústria de transformação encolheu à vergonhosa marca de 11% do PIB — e o mais perturbador não é o número em si, mas a ausência de qualquer escândalo político à sua altura.
Fonte: IBGE / Contas Nacionais. Valores aproximados com base em séries históricas. A linha vermelha marca o limite de 20% — piso considerado por economistas como necessário para uma economia industrial saudável.
A desindustrialização não chegou de surpresa. Ela foi anunciada, documentada, debatida em fóruns acadêmicos e relatórios do IPEA, e depois convenientemente esquecida por sucessivos governos que encontraram no rentismo uma solução política de menor atrito. Manter o capital financeiro satisfeito é mais fácil do que brigar com burocracia, modernizar infraestrutura e enfrentar oligopólios. E assim, enquanto Coreia do Sul, China e Alemanha tratavam sua indústria como questão de Estado — e de sobrevivência —, o Brasil a tratou como setor de segunda categoria.
O Crime da Taxa de Juros
A primeira causa da destruição industrial é também a mais escandalosa porque é deliberada: a política de juros reais mais altos do mundo. Enquanto empresas industriais alemãs, sul-coreanas e americanas tomam crédito de longo prazo a taxas de 2% a 4% ao ano para modernizar suas plantas, um empresário brasileiro que desejasse financiar a compra de máquinas enfrentava, inconstante de momentos da última década, taxas reais superiores a 8%, 9% e até 10% ao ano. Não existe racionalidade econômica que justifique investir em fábrica com esse custo de capital. O resultado é matemático: nenhuma indústria competitiva nasce ou sobrevive nesse ambiente. Quem investe prefere a segurança rentista do Tesouro Direto. O país financializa em vez de produzir.
A Formação Bruta de Capital Fixo — o indicador que mede o quanto o país investe em máquinas, equipamentos e infraestrutura — estaciona em míseros 16,8% do PIB. Não é mistério o que isso significa: é pouco, é insuficiente e é o reflexo direto de décadas de prioridade errada. Enquanto isso, a China investe 42%, a Coreia do Sul 31%. O abismo não é resultado de fatalidade geográfica nem de maldição histórica. É escolha. É política. É omissão.
O Conforto dos Oligopólios e a Morte das Médias Empresas
Há um segundo mecanismo de destruição, menos visível, mas igualmente letal: a oligopolização da economia que deveria sustentar a indústria. Os setores de crédito, logística e distribuição de insumos industriais estão concentrados em pouquíssimos grupos que, protegidos por barreiras burocráticas e pela cumplicidade histórica do Estado, operam com margens infladas e baixíssima pressão por eficiência. O pequeno e médio fabricante — aquele que deveria ser o berço da inovação industrial brasileira — paga caro demais pelo frete, pelo crédito e pelos insumos. Não consegue competir. Fecha. E fecha sem que nenhum ministro sequer mencione seu nome.
Dados do IBGE reveals um número que deveria ser tratado como emergência nacional: o país perdeu quase 10 mil empresas industriais em uma única década, com a destruição de 1 milhão de postos de trabalho diretos. Cada planta fechada não é apenas uma estatística. É know-how técnico que se dissolve, são engenheiros que migram para o setor de serviços, é arrecadação que desaparece, é uma cidade do interior que perde sua âncora econômica e mergulha na informalidade.
A Inação como Política de Estado
O traço mais perturbador dessa trajetória é que ela atravessa governos de toda natureza ideológica sem que nenhum tenha se disposto a enfrentá-la com seriedade. A direita celebrou o livre mercado e ignorou que nenhum país rico abriu mão de política industrial. A esquerda criou programas de desonerações pontuais e subsídios mal desenhados — como o Reintegra e partes do Brasil Maior — que beneficiaram setores específicos sem atacar as causas estruturais do problema. Nenhum dos dois campos produziu o que o problema exigia: uma estratégia de longo prazo, com metas, coordenação interministerial, crédito barato direcionado, reforma tributária real e investimento em infraestrutura de escoamento.
Brasília trocou política industrial por nota de preocupação. Trocou estratégia por declaração de intenção. E enquanto o governo deliberava, as fábricas fechavam.
O Destino que Estamos Construindo
Se a trajetória atual persistir, o Brasil não cairá num abismo de repente. Será um deslizamento lento e confortável em direção a uma identidade que já está se consolidando: a de grande fazenda e mineradora do mundo. Exportamos soja, minério de ferro, petróleo bruto. Importamos microchips, máquinas, medicamentos e o valor que agregamos para nós mesmos nos importamos de volta embutido no preço dos produtos acabados. É um modelo funcional, mas é o modelo do século XIX com roupagem do XXI. É o modelo que condena um país a nunca ditar, apenas obedecer.
A desindustrialização é, no fundo, a perda da soberania em câmera lenta. Um país que não fabrica o que consome não tem autonomia para decidir o que produz, como produz, para quem vende nem a que preço. Torna-se refém das cadeias globais de suprimento — como o Brasil descobriu, dolorosamente, na pandemia de 2020, quando respiradores, EPIs e princípios ativos farmacêuticos simplesmente não estavam disponíveis porque havia muito tempo havíamos terceirizado sua produção para outros.
A promessa das chaminés dos anos 1980 não morreu sozinha. Ela foi abandonada, aos poucos, por escolhas que preferiram o conforto do curto prazo à dureza de construir algo que dura. O Brasil pode ainda reverter esse caminho — mas o relógio não para, e a janela se estreita a cada planta que fecha e a cada engenheiro que emigra. O progresso tecnológico, com máquinas e equipamentos cada vez mais complexos, aumenta ainda mais esse hiato até o ponto em que se tornará intrasponível.
IBGE — Contas Nacionais: séries históricas de participação da indústria de transformação no PIB (1985–2024).
IBGE — Pesquisa Industrial Anual: fechamento de empresas e destruição de postos de trabalho diretos na indústria (2010–2020).
CNI — Confederação Nacional da Indústria: estimativa do "Custo Brasil" e seus componentes (burocracia, logística, insegurança jurídica).
FGV / IBRE — Séries de Formação Bruta de Capital Fixo como percentual do PIB.
IPEA — Relatórios sobre desindustrialização e política industrial brasileira (diversas edições).
Banco Mundial — Comparativos internacionais de taxa de investimento e participação industrial no PIB.

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