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A guerra que o Estado não quer vencer: Por que o Brasil recusa-se a derrotar o PCC e o CV

O Estado que Escolheu Olhar para o Lado — ASN Brasil
Arte gráfica retratando a leniência do Estado com o crime

Arte gráfica retratando a leniência do Estado com o crime (Chatgpt).

Em março de 2025, Nayib Bukele, presidente de El Salvador, disse algo que deveria ter parado o Brasil. Em um vídeo que viralizou, ele afirmou com uma simplicidade desconcertante: "O Leviatã, o Estado, é sempre mais forte do que qualquer organização criminosa. Nós demonstramos isso."

Sobre o Brasil, ele foi ainda mais direto. Questionado por um auxiliar sobre como é possível que uma organização criminosa se apodere de territórios inteiros e o governo não consiga expulsá-los, Bukele respondeu sem hesitar: "Porque eles estão no governo. Por isso."

Não era retórica. Era diagnóstico.

El Salvador, que em 2017 tinha o maior índice de homicídios do mundo, se transformou no país mais seguro do hemisfério ocidental em menos de três anos. O mesmo Bukele que muitos chamam de populista autoritário fez o que dezenas de governos brasileiros disseram ser impossível: devolveu o território ao Estado.

"Se El Salvador conseguiu, por que o Brasil não consegue? E mais importante: será que realmente quer?"

O Terrorismo que o Brasil se Recusa a Nomear

Em 2025 e 2026, o governo americano pressionou o Brasil a classificar o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras. A medida permitiria sanções financeiras internacionais, congelamento de ativos globais, cooperação antiterrorismo de alto nível e instrumentos jurídicos excepcionais de combate.

O governo Lula recusou.

O argumento oficial é que a Lei Antiterrorismo brasileira exige motivação ideológica para a classificação — e as facções agem por lucro, não por política. É um argumento juridicamente defensável. Mas é também, convenientemente, o argumento que mantém as mãos do Estado amarradas. Se o PCC e o CV fossem classificados como organizações terroristas, o governo teria poderes extraordinários para combatê-los: congelamento de ativos com muito mais velocidade, ampliação drástica da cooperação internacional, instrumentos que hoje não existem na legislação ordinária.

O paradoxo do promotor Gakiya

É impossível que empresas com dívidas tributárias de 10 a 20 bilhões de reais continuem operando normalmente sem uma rede de corrupção estruturada em vários setores do Estado. "Se eu dever R$ 5 mil para o imposto de renda, vou ter bloqueio de bens rapidamente." O crime deve bilhões — e continua operando. Não apesar do Estado. Com a permissão silenciosa dele.


A recusa em classificar não é apenas jurídica. É estratégica. Manter as facções fora da definição de terrorismo é manter o Estado fora da obrigação de usar todo o seu poder contra elas.

O Que o Governo Deliberadamente Deixa de Fazer

Não falta inteligência. Não faltam relatórios. Não faltam promotores corajosos nem policiais honestos. O que falta — e essa é a acusação que precisa ser feita com clareza — é decisão política.

Não revisa o sistema prisional. Líderes do PCC gerenciam operações de dentro de penitenciárias com celulares que entram com a cumplicidade de agentes corruptos. A prisão, que deveria ser o instrumento da punição, tornou-se o quartel-general do crime.
Não ataca o coração financeiro das organizações. Prender um soldado do tráfico é fotogênico. Confiscar R$ 10 bilhões é transformador. O Estado brasileiro prefere o espetáculo da operação policial à cirurgia do desmonte financeiro.
Não cria estruturas permanentes e blindadas de combate. Varas especializadas, promotores dedicados, investigações plurianuais que não sejam interrompidas a cada mudança de governo ou pressão política — tudo isso existe no papel e não na prática.
Não investiga a captura eleitoral. Em centenas de municípios brasileiros, facções definem votos. Vereadores e deputados constroem carreiras no silêncio comprado com a tolerância ao crime. É rotina — porque nenhum governo tem interesse em abrir esse armário, pois o esqueleto dentro dele usa roupa de todos os partidos.
Não trata a internacionalização do PCC como problema federal. Uma organização presente em 28 países não é responsabilidade do governador de São Paulo. É responsabilidade da República.

A Culpa é do Governo. Sem Atenuantes.

Bukele estava certo. O Estado é sempre mais forte do que qualquer organização criminosa. Sempre. Em qualquer lugar. Quando ele decide sê-lo.

O Brasil tem o maior orçamento de segurança pública da América do Sul. Tem uma Polícia Federal que já desmantelou esquemas de corrupção de escala civilizacional. Tem promotores que sabem exatamente como o PCC opera, quem o comanda e por onde passa o dinheiro. Tem juízes que condenam. Tem leis que permitem.

O que não tem é um governo disposto a pagar o preço político de uma guerra real contra o crime organizado. Porque essa guerra exigiria confrontar eleitores que dependem das facções. Exigiria nomear aliados que se beneficiam da omissão. Exigiria assumir que o Estado, em enormes fatias do território nacional, abdicou de sua função mais básica — o monopólio da força e da ordem — e a entregou a organizações criminosas que a exercem com uma eficiência que o governo jamais demonstrou.

O crime organizado brasileiro não é forte porque o Estado é fraco. É forte porque o Estado, repetida e deliberadamente, escolheu olhar para outro lado.

Essa é a verdade. E enquanto o Brasil continuar debitando essa conta na conta da incompetência — em vez de nomeá-la pelo que é, cumplicidade — o PCC continuará crescendo, o CV continuará expandindo, e algum promotor solitário continuará tentando explicar, em uma CPI que ninguém assiste, como uma organização criminosa conseguiu crescer 100.000% sob o nariz de um Estado que tinha todos os instrumentos para impedi-la. E não o fez.

Fontes

  • Brasil Paralelo — Bukele diz que Brasil não acaba com facções criminosas porque "eles estão no governo".
  • Folha Política — Presidente de El Salvador, Bukele explica por que Brasil não controla o crime organizado.
  • Terra / Senado Federal — PCC já fatura R$ 10 bilhões ao ano: "Crescimento foi assustador", diz promotor em CPI (nov. 2025).
  • Brasil no Centro — PCC amplia influência e movimenta mais de R$ 100 bilhões ao ano, aponta MP.
  • O Tempo — Facções lucraram R$ 453 bilhões na economia formal e impediram criação de 370 mil empregos.
  • Band Notícias / Jornal da Band — PCC investe na formação de candidatos de concursos para juízes e promotores (jun. 2023).
  • Polícia Federal via Band — PF investiga ligação do PCC na formação de candidatos para juízes e promotores (jul. 2023).
  • Gazeta do Povo — PCC forma advogados e tenta se infiltrar no Judiciário e no Ministério Público.
  • CNN Brasil — PCC e CV são terroristas? Veja o que dizem autoridades e especialistas (mar. 2026).
  • CNN Brasil — "Não acho que sejam organizações terroristas", diz Durigan sobre PCC e CV (abr. 2026).
  • Agência Brasil — Classificação de facções como terroristas pelos EUA ameaça soberania (mar. 2026).
  • Band Notícias — Sem combate à corrupção, não há como enfraquecer o PCC, diz promotor (mai. 2026).
  • Confederação Nacional da Indústria (CNI) / Fiesp / Firjan — Nota técnica sobre infiltração do crime organizado na economia formal (2022).
  • Fórum Brasileiro de Segurança Pública — Estudo sobre mercado ilegal de cigarros e prejuízo fiscal (2024).
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