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A ilusão da soberania brasileira sem um Projeto de Estado

Arte gráfica do Brasil no meio de Potências com projetos definidos. (Chatgpt)

O Brasil está condenado não por falta de recursos ou capacidade, mas por algo mais corrosivo: a ausência de um projeto de estado que atravesse gerações. Enquanto as grandes potências — China, Rússia, Irã — tecem suas estratégias com a paciência de quem sabe estar jogando um jogo de décadas, o Brasil improvisa. A cada quatro ou oito anos, reinicia. E nesse reinício permanente, descobre-se tarde demais que foi reduzido ao papel de peão em um tabuleiro que não desenha.

A realidade é simples e aterradora: as potências imperiais, autocráticas e teocráticas que moldam o século XXI operam sob lógicas de continuidade estratégica que o Brasil não consegue sequer imaginar. A China concebe seus objetivos em horizontes de cinquenta anos. A Rússia, apesar da turbulência econômica, mantém uma coerência geopolítica que remonta à Grande Estratégia czarista. O Irã constrói redes de poder no Oriente Médio com paciência de quem sabe que impérios duram séculos. E o Brasil? O Brasil elege. Reinicia. Desfaz. Reconstrói sobre as ruínas do que veio antes.

Essa descontinuidade não é acidente. É estrutural. E é fatal.

O Ciclo da Inutilidade

O rodízio eleitoral brasileiro, elevado a dogma democrático, é incompatível com qualquer projeto estratégico que transcenda o mandato. Não porque a democracia seja ruim — mas porque a democracia brasileira tornou-se um mecanismo de autonegação. Cada transição de poder não é apenas uma mudança de governo. É uma demolição institucional.

O padrão é previsível: chega ao poder um grupo que promete romper com o anterior. Não por discordância sobre objetivos estratégicos — porque não há objetivos estratégicos. Rompe porque o anterior era da oposição. Desfaz porque é ominoso conceder ao adversário político qualquer obra, qualquer iniciativa que perdure além do mandato. O resultado é um estado catatônico, contraído sobre si mesmo, incapaz de acumular ganhos, aprendizados ou posições geopolíticas.

A Petrobras é um espelho dessa patologia. Um ativo estratégico que deveria ser ferramenta de poder nacional é transformado em balcão de desmonte a cada ciclo. Política de preços, gestão, investimento em exploração — tudo refém da hora política. Os chineses adquirem concessões enquanto o Brasil discute se a empresa deve vender ou não a empresa. Os russos entram em parcerias enquanto o Brasil se comporta como pequeno acionista de si mesmo.

Descontinuidade
Enquanto grandes potências pensam em décadas, o Brasil parece pensar apenas até a próxima eleição. Governos passam; objetivos nacionais deveriam permanecer.

O Horizonte Truncado

Essa talvez seja uma das maiores tragédias nacionais. Não faltam recursos naturais, território, população ou capacidade produtiva. Falta algo muito mais difícil de construir: um projeto de Estado. As nações que moldam a ordem internacional possuem interesses permanentes. A defesa da indústria, da infraestrutura crítica, da segurança alimentar, da autonomia tecnológica e da capacidade militar costuma transcender disputas partidárias.

Na França, não importa si governa a direita ou a esquerda: a indústria nuclear é intocável, a presença no Atlântico Sul é inegociável, o acesso ao Sahel é sagrado. Na China, não importa quem senta na poltrona: a reintegração de Taiwan é objetivo de estado, a supremacia tecnológica é mandato civilizacional, o domínio da Ásia é destino inevitável. Até na Rússia, com toda sua turbulência interna, há um eixo — a reconstituição da esfera de influência russa — que não morre nem mesmo quando economias desabam.

O Brasil, ao contrário, reinventa seus objetivos a cada eleição. Para alguns, a indústria é sagrada; para outros, a desindustrialização é modernidade. Para uns, a Amazônia é ativo geopolítico inegociável; para outros, é commodity a ser liquidada. Para determinado grupo, a tecnologia é soberania; para o sucessor, é assunto menor. Nenhum objetivo perdura. Nenhuma visão transcende.

“O Brasil não é mais player. É jogado.” — Análise da Geopolítica da Impotência

A Ausência do Nacionalismo Estratégico

Aqui reside o fracasso verdadeiro. A situação não é nacionalista. A oposição não é nacionalista. O que existe é uma competição estéril pelo poder, onde os protagonistas compartilham uma falha comum: a incapacidade de imaginar o Brasil como um projeto que transcende suas carreiras políticas.

Um nacionalismo estratégico genuíno teria feito escolhas claras e impopulares há décadas. Teria dito não aos investimentos estrangeiros predatórios em mineração. Teria construído indústria de defesa com obsessão. Teria transformado a Amazônia em ativo geopolítico intangível, em vez de deixá-la apodrecer sob o descaso e a especulação. Teria cultivado capacidades tecnológicas próprias. Teria investido em educação técnica de forma coordenada e de longo prazo. Teria, acima de tudo, mantido coerência.

Mas isso exigiria que os grupos políticos brasileiros pensassem além de si mesmos. Exigiria que a situação de um governo acreditasse que a obra que constrói merece ser aprofundada pelo sucessor — e que o sucessor reconhecesse, no trabalho do antecessor, não a marca do inimigo político, mas o alicerce de uma potência que, para existir, deve estar acima das colorações ideológicas do momento.

Isso não ocorre. O Brasil escolheu outro caminho.

A Construção na Areia

Projetos estruturadores do estado brasileiro morrem como flor de bananeira. Aparecem, crescem, promissores, e quando estão no limiar de produzir resultados, uma eleição varre tudo. O planejamento decenal vira pirueta oratória. O plano plurianual é peça de teatro político. A continuidade administrativa não existe.

Tome-se qualquer iniciativa de grande porte dos últimos trinta anos. Constatará o padrão: uma metade de vida sob investimento, promessas de conclusão, vantagens claras anunciadas — e depois, o pneu murcha quando entra a oposição. Não há memória institucional porque a memória é desconfortável quando ela pertence ao lado oposto.

Enquanto isso, a China constrói ferrovias de alta velocidade em ritmo industrial. A Rússia consolida sua hegemonia na Ásia Central. O Irã tece alianças em um arco que vai de Beirute a Teerã a Bagdá. E o Brasil? O Brasil discute se deve ou não concluir aquilo que começou há oito anos, porque agora o inimigo político está no poder.

A Geopolítica da Impotência Essa fragilidade interna tem consequência exterior clara: o Brasil tornou-se um estado sem agência geopolítica real. Negocia como quem não tem cartas. A China oferece investimento e o Brasil diz sim e não alternativamente, a depender da cor do governo. Os EUA exercem pressão diplomática e o Brasil cede porque não tem profundidade estratégica para resistir. O Irã sonha com alianças no Atlântico Sul que nunca se concretizam porque não há projeto que as sustente.

E enquanto isso, as potências que entendem que o estado é instrumento de poder — não prédio de ideologia — continuam seu trabalho de longo prazo, sabendo que qualquer Brasil fragmentado por eleições e ciclos políticos será sempre previsível, sempre manipulável, sempre pequeno.

Fontes Consultadas

  1. Kissinger, H. A Diplomacia. 1994.
  2. Huntington, S. P. The Clash of Civilizations. 1996.
  3. Kaplan, R. D. The Revenge of Geography. 2012.
  4. Brzezinski, Z. The Grand Chessboard. 1997.
  5. Documentos de estratégia nacional chinesa: China's 14th Five-Year Plan (2020-2025) e Made in China 2025.
  6. Monière, D. Ideologias no Brasil: Conservadorismo, Liberalismo e Socialismo. 1981.

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