Há uma lógica fria e deliberada por trás da política de Washington em relação a Havana. Não se trata de improvisação nem de impulso ideológico descontrolado. O que a administração Trump aplica contra Cuba é uma estratégia estruturada, pensada para acelerar o colapso de um regime que sobreviveu a dez presidentes americanos. O nome técnico para isso é aceleracionismo geopolítico: aumentar a pressão sobre sistemas frágeis até que a contradição interna se torne insustentável e o colapso seja inevitável — de preferência, nos termos de Washington.
Pressão Máxima: O Manual de Trump
Desde o retorno de Trump ao poder, os Estados Unidos reativaram e intensificaram o pacote de sanções contra Cuba com precisão cirúrgica. A lógica é simples: privar o regime de toda fonte de receita externa até que o custo de manter o poder seja maior do que o custo de negociar uma saída.
A medida mais devastadora tem sido o corte do fornecimento de petróleo venezuelano. Caracas, que durante anos subsidiou o regime cubano com barris de petróleo em troca de serviços médicos e assessoria militar, opera hoje sob suas próprias restrições severas impostas por Washington. O resultado é uma crise energética de proporções históricas: apagões de até 20 horas diárias em algumas províncias, paralisação industrial e colapso do transporte público.
Somam-se ao corte energético: o bloqueio financeiro reforçado, a reinscrição de Cuba na lista americana de patrocinadores do terrorismo, restrições às remessas da diáspora cubana e pressão sobre países terceiros para que evitem transações com Havana. É o manual da pressão máxima aplicado com consistência — e com um objetivo declarado: a capitulação do regime ou sua implosão.
Cuba não é a Venezuela: A Questão da Coesão
Aqui reside o problema central da estratégia americana. Maduro governava sobre um Estado fragmentado, com forças armadas divididas, uma elite empresarial que migrou para o campo opositor e uma sociedade civil que produziu levantes expressivos. A coesão ideológica do chavismo é superficial — uma mistura de pragmatismo militar, clientelismo e dependência de petrodólares.
Cuba é outra história. O Partido Comunista Cubano mantém décadas de controle institucional verticalmente integrado. As Forças Armadas Revolucionárias não são apenas um braço do regime — são o regime. Generais controlam empresas, hotéis, infraestrutura portuária e o sistema de importações. A elite militar cubana tem interesse direto na manutenção da estrutura atual.
Em Cuba, diferentemente da Venezuela, o Exército é o Estado.
Essa coesão ideológica e militar torna o colapso abrupto improvável no curto prazo — mesmo diante de uma crise econômica profunda.
A Resiliência como Identidade
Há outro fator que Washington frequentemente subestima: a resiliência do povo cubano foi forjada em décadas de escassez e adversidade. Para os cubanos, sobreviver ao bloqueio é, em alguma medida, uma questão de identidade nacional. O regime soube construir uma narrativa em que o inimigo externo justifica cada privação interna — e parte significativa da população internalizou essa narrativa.
As manifestações de julho de 2021 mostraram que existe um limiar de tolerância. Mas a repressão subsequente — com centenas de ativistas presos e condenados — demonstrou também a brutalidade com que o Estado está disposto a responder. A sociedade cubana está exausta, mas o Estado permanece funcional nos seus instrumentos de controle.
Os Três Cenários
Diante desse quadro, três desfechos são possíveis:
A crise energética e econômica atinge um ponto de ruptura sistêmica. O Estado perde capacidade de pagar salários militares e prover mínimos à população. A implosão ocorre de forma caótica, sem transição planejada. É o cenário que Washington teoricamente deseja — mas também o que mais amedronta a Flórida.
Setores das Forças Armadas e do Partido, percebendo a inviabilidade do modelo atual, abrem canais de negociação com Washington — possivelmente via terceiros — em troca de garantias de imunidade e preservação de ativos. É o modelo que os EUA usaram em outros contextos e que parte do establishment americano prefere.
O regime se contrai, aceita o empobrecimento como estado permanente, mantém o controle por meio de repressão e ideologia, e aguarda uma mudança na política americana. Cuba já sobreviveu ao fim da URSS. Pode sobreviver a Trump.
O Pesadelo da Flórida
Há uma contradição irônica no coração da estratégia de Trump. A pressão máxima sobre Cuba tem um efeito colateral que aterroriza o eleitorado republicano na Flórida: a emigração em massa. Desde 2021, Cuba registrou o maior êxodo da sua história recente. Uma implosão desordenada do regime poderia gerar uma onda migratória sem precedentes em direção ao Sul da Flórida — um Estado politicamente crucial e geograficamente vulnerável.
Apertar demais pode gerar exatamente o caos humanitário que Trump prometeu evitar.
As Opções de Trump
Dentro desse quadro, as principais ferramentas à disposição de Washington são:
O que Trump não tem é uma ferramenta capaz de resolver o problema sem custos. Cuba é pequena demais para ser ignorada e grande o suficiente para ser um problema perene. O regime é frágil o suficiente para ser pressionado e coeso o suficiente para resistir.
A história dirá se a estratégia aceleracionista quebra Havana ou apenas prolonga a agonia — de ambos os lados do Estreito da Flórida.

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